Timidez

24/11/2024

Tenho medo daquela mulher. Faço de tudo para não estar em seu campo de visão, quando existo, alheio, no seu caminhar ritmado.

Bem sei que, com seu vigor, força e inteligência, pode demover poderosos de tramas malignas, não se submetendo jamais à oficina grotesca dos fatos, e que em sua ação, de ponta a ponta, se impregna uma energia de luta e bravura. E eis que há curta pausa do labor, o intervalo, e de repente me posto diante dela feito um naco de sombra vacilante ao passar de comboio — que segue, segue. 

Bem poderia ela escancarar todas as minhas falhas e pequenezas, projetadas constrangidas à visão rutilante de suas virtudes, e seu desembaraço e vivência constratarem com meu travamento e inexperiência. Na prática, contudo, é como se sua piedade se limitasse a relevar o patético de um sorriso pardo, se limitasse a não fazer notar o sabor da insipidez, gentileza sem gume em meio ao espicaçamento antecipado em delírio. De todo jeito, seja na irreal visão malsã, seja no cotidiano concreto, já de pressuposto carrego lamentações de outrora, estremeço. 

Apitos, fumaça, poluição no ar, o transtorno ruidoso de caminhos múltiplos, e então se me encorpam reminiscências de episódios simbólicos, faíscam enquanto dor do que foi perdido. A chuva cinzenta, o quintal de abrigo transitório, a casa já a ecoar palavras de família, embates banais, e lufadas ameaçadoras no espaço intercalam com a esperança puída de estio. O quintal era uma proteção a exprimir despedida — como pode ser o que abriga adeus? Lá o mau tempo parecia não ter trégua. Até que tem fim, e as palavras seguem a ecoar nas paredes do lar que me é alheio. O que dizem? O olhar recai por sobre o amontoado de coisas pelos cantos do quintal, das árvores dispersas ainda se faz chuva, na cabeça estala uma febre latente, no coração o peso de estremecimentos desconhecidos. 

Se ela afirmasse, não me despertaria da negação, se ela acreditasse, não me livraria da dúvida.

Cor

26/10/2024

Gosto de dicionários. A princípio pelo gosto da palavra em si, isolada, depois pelo hábito da literatura esconjurado em minha vida. 

Meu primeiro dicionário grande foi um Houaiss, quando logo percebi que a referência da linguagem não estava toda ali. Havia presumido que um grande dicionário encerrava o universo possível da expressão, conformando, até, nomes de heróis do mundo antigo, deuses, lendas, ritos, lugares, coisas de enciclopédia afinal. Pois bem. Como esperar tudo isso de dicionários? 

Ainda assim, ainda gosto e preciso de dicionários.

Antes tinha o costume de anotar palavras diferentes que me capturassem a atenção, de modo que pudessem ser incorporadas na minha escrita eventual, é verdade, mas no fundo já pressentia que era algo inútil, fechado a si, poça no quintal, lâmpada azul de berço da infância perdida.

Também me entretinha perceber como determinado escritor deteve, durante recorte temporal de sua escrita, predileção por uma palavra ou outra, e então em certos trechos sobrepostos se repetem “defronte”, “caceteação”, “circunlóquio”, “ramerrão”, “desconchavo”, “prosaico”, “tiririca”, “requinte”, “esbater”, “fruste”, “senão” etc. Mesmo que inseridas em contexto sério, tirava disso uma ligeira diversão.

Preciso de dicionários pela necessidade de se atenuar e dissimular a inevitável ferida da ambiguidade, da imprecisão e da impotência do dizer. Objetiva que seja a fixação dos significados, atenta que seja a recepção, concentrada, sinto que há demasiado desentendido, brecha, vácuo do não dito, nas banalidades mesmo das conversas e desencontros da vida. Na escrita, pelo menos, melhor se pode buscar o definir preciso e justo. Mesmo aqui se fracassa.

E estico o amor cultivado pelo engenho da palavra, solta ou em arranjo, até seu limite deitado em fumaça e confusão, até a dor das ruínas da expressividade, e entre o pó que fica tudo é malícia, vaidade e fantasia.

Bagatela

11/10/2024

Os movimentos e desfechos da vida banal são em mim assomo desajeitado, derrubar de louças, esbarrões, cuja projeção interna faz de bagatelas uma mágoa submarina. E no caminho, o devaneio.  

A bagatela é revolvida, retorcida, sua face é repisada com variações mínimas, em seu seio entrevisto imprecisamente, nascedouro falso de desassossego. Algo tão comum, a esquecer, é para mim assombro pulsante de ideia fixa que se insinua em voltas e traumas nos contornos de pesadelo.

E então é como se dentro de mim houvesse uma força criativa autônoma sádica a projetar malfadados de coisas pequenas em cores sempre novas, cores exuberantes ou pálidas, histórias a um só tempo há muito decoradas e sempre com novas palavras, e ao adentrar estuários intervalares do consolo tenho as raízes largadas a céu aberto de um sofrimento inútil, radicado que é, justamente, numa bagatela. Uma dor puída de nada que, de tanto revirar, compõe vazio inexpressivo da espinha do ser, compõe obra inacabada cujo meio não para de dar vida a sobressaltos supostos e ignorados. 

Não sei agir a partir e para esta vida corriqueira, e o que esta vida tem de inevitável — porque meus pés não prescindem do chão, nem meus olhos do que está logo à frente — tem de meu desprezo. A força criativa tem mãos para o devaneio, nas frinchas das bagatelas são tracejadas, com a facilidade de sonho, resoluções tão exitosas, renúncias tão assertivas e acabadas, a cobrir o banal baldado, cheio do torvelinho artificioso do sofrimento, da culpa e da vergonha, de nobreza pressuposta. O desprezo do que se estranha do alheamento é espaço a toda sorte de afetuosa vontade, da nulidade se evoca o amor de um sentimento cheio, se esvaindo afinal, corpo daquela mesma nulidade. 

Intervalo

11/09/2024

O suicídio alheio me é um horror, enigmático espanto, enquanto que a sugestão do suicídio próprio é fermentada, vagamente, encostada alhures, sob o rito dorido e tácito de motivações que se veem nobres e me vem repassada de símbolos singulares, porque seria um suicídio diferente… sem horror, sem escândalo, fim absurdo em fumegar no apogeu da juventude. 

Talvez essa ideia fixa latente seja um mero subterfúgio em meio à pobreza cotidiana. Há o dever que oprime, há a noção de que estou condenado a ter que viver e de que isto é um pesadelo. Mas há também outra coisa, pano de fundo até mesmo da ideia de suicídio: o sentir não poder me suicidar, baseado em não sei quê.

Não me regenero, não vislumbro salto, não sou apto à conduta, de peito pleno, de aproveitar o mundo no intervalo da finitude. Com a mesma falta de fé para o que edifica, olho para a corrente frenética do que é rasteiro e prosaico, porque o que era tido como esteio e consumado se mostrou tão frágil, e o desenrolar próprio das coisas parece compor uma grande ironia em tudo que é destino. 

Sei que o suicídio se me esgueira, neste cenário infausto, não por ser luta de vida e morte, ou mesmo promessa de alívio. Não há embate, pois já fracassei de pressuposto, e com a mesma falta de fé para o que edifica, olho para a corrente frenética do que é rasteiro e prosaico, olho para tudo e nego a negação, mesmo que isto implique prolongamento inconveniente e aborrecido deste estar anulado. O amanhã é uma extensão incontornável de angústia. Que venha!, sinto que nos singelos e curtos entreatos dos espetáculos grotescos respirarei ar puro.

Domingo

19/08/2024

Foi sentir em torpor que atravessei a cidade sonolenta em meio ao nascer daquele domingo, a vida das coisas nítida. Na calçada defronte, vindo do fundo irreal da avenida, caminhava um casal, a fingir discussão qualquer. Na ciclofaixa figuras dentro do sono do movimento corriam, andavam, passavam de bicicleta, fechadas em fones de ouvido. No transporte da madrugada de shows, bailes e festivais retornavam para casa alguns, assim como alguns outros do trabalho, tão paralisados pelo sono que perdiam a chegada à própria estação. Observava os rostos, as expressões, os cortes de cabelos em dégradé, e tudo soava ser. 

E igualmente em torpor a noite de meu retorno me recebeu com fina chuva e treva. E um carro quase que esmaga um motoqueiro, que ficou prostrado sobre o chão, sob a motorista perplexa sem saber pedir socorro. Igualmente sem saber agir, travado na calçada fiquei, talvez perplexo pela minha própria paralisia, alheia àquilo, faiscada em luz à visão do acidente. 

Durante o dia hesitei sobre as meras coordenadas de onde pisava, errei pelas margens da avenida, avistei grandes empreendimentos, galpões e mercado. Nos intervalos se apinhava gente jovem nos corredores, rumor das justificativas sempre tão prontas e acabadas, as projeções das ambições e do sucesso. Já a conversa das ruas daquele subúrbio se acentuava com a fumaça de churrasqueira, com alarido visual das lojas e padarias, com o som difuso das televisões e rádios, com o estrépito de motores e freios, e subiam do barulho suburbano dizeres espirituosos sobre o rebaixamento do Cruzeiro.

A grande distância do retorno físico era a distância ainda maior de uma espera concreta. Temia que um incidente qualquer atrapalhasse a chegada, inclusive no perturbar da pontualidade, bem sabendo, contudo, que chegar era inútil. A ideia fixa não era uma mania engenhosa, artifício de criador. E a falta de fé não era falta de hábito beato. Quem sabe se o descrente não seja o principal a sentir fome de divino, depois de ter tentado requintar os seus modos diante de Deus, Deus este que o houvesse negado.

Aquela inquietude passada talvez seja a de hoje, que tem o apelo do que, do passado, fez a construção de um argumento novo. E assim, a lamúria passada parece ser construída surda e vagamente, enquanto o lamento do presente arrepia no tato, com o peso de insucessos concretos. 

A ideia fixa é um pesadelo. Sobre tudo não badala nenhum sino. 

Não foi em devaneio que a vi curvada, alheia. Talvez então ela não ouvisse a algazarra ao redor, certamente naqueles últimos minutos do intervalo retornava de forma desprendida. Ela não era em vestes majestosas; embora pudesse ser soberbamente altiva com seus gestos, era majestosa no esquecimento, e em meio a um lapso forjou em pedra a loucura e o delírio. E neste instante de perdição a vi. Mas prosseguia a linha do tempo, no vazio da incomunicabilidade se esgueiram sustos e sobressaltos da visão de tudo. 

Posso até extrair um aprazível gosto ao encenar o patético de uma figura lamentosa, repetir o velho caminho da inquietação, me distrair com as ambições materiais, os interesses sazonais, as promessas de alegria, as reflexões astuciosas. A tenacidade do movimento inquieto se desenha enquanto treva nas paredes do claustro. A ideia fixa é um pesadelo.

O dia se encerra abruptamente, com fumaça e chuva esguia tudo é peso de sombra encharcada, faróis escorrem frenéticos e trêmulos pela avenida, em certas esquinas alguém se fere, ecoam noutros lados gritos exaltados.  

Campo

10/06/2024

Antes do campo — amplo, todo espaço do descortinar do esplendor da ação –, antes do campo o campo reduzido, as delimitações no campo de visão de um mero olhar.

Foi ligada a luz do farol. Era tolice escancarar o portão, como se a luz não pudesse passar pelos triângulos das grades. Antes do campo o campo reduzido. Ou melhor, um quintal reduzido, interior ao portão chapado, sem brechas para luz.

E contavam, encerrados às paredes cinzas do quintal reduzido, entusiasmados, contavam coisas extraordinárias sobre o campo. Mas, o campo em si, em essência, alheio àquela exuberância da ação, não cria nada. Apesar da ação a pulsar sobre sua relva, o campo talvez então apenas evocasse o repouso de uma frescura indolente e abaulada, quase imóvel, abandonada no tempo. E tudo do campo reduzido parecia representar transbordamento. Não contrastava com a ação frenética ali descortinada, porque a angústia do movimento era a angústia de se estar parado, preso ao campo reduzido.

O caminho até o campo já era cansaço. Na volta, entre caronas, descaminhos, ruas íngremes, alusões ao movimento, calor, sede e suor, não se ruminava por derrotas, tampouco se curvava antecipadamente ao peso de um futuro sem cor. 

Até que chega o momento em que torna premente arrancar da memória o campo. Por óbvio, sua extensão, as grandes traves remetem a algo complicado, a exigir justamente o extraordinário de se superar, e por mais que a movimentação frenética da conquista traceje um estar animado, a fervilhar o sangue e carne, o extraordinário não é do campo, e se superar passa a carregar consigo uma exasperação que se não faz crer em transformação, mas em colapso. 

Viesse a ser retorcida a suspensa pasmaceira de um estar estanque, repassada embora de nostalgia que vislumbra regeneração majestosa e ceifada — viesse, poderia ser ofertada ação entre linhas estreitas. Uma ação tão diligente, tão bem acabada, de ponta a ponta. Aqui, a entregue vocação. A vocação perfeita inspira, entusiasma, faz amar, e parece se encerrar justamente dentro das linhas estreitas do campo reduzido. E este agir consciencioso, bem acabado, esta ação sábia talvez não dissimule inteiramente o transbordar irrequieto do campo reduzido.

Hábito

10/05/2024

Um apanhado de figuras esplendorosas dá a ideia de criação de um punhado de papéis de palavras afetivamente generosas em seu espírito. Ou melhor, a despeito da intenção que as inspirou, têm uma aplicação vaga, imprecisa, incerta.

Por óbvio, com o tempo se acerca junto da precisão de cada palavra, é verdade, mas também se escancara o peso do não dito, da ironia e da dissimulação. 

Diverte, empolga, não é de todo estranho estalar o estar zombeteiro, rir de episódios, rememorar para rir. Nem mergulhar nos acontecimentos de futebol: as polêmicas recentes de arbitragem, os pontos corridos, as campanhas de times surpreendentes, as fases classificatórias, as ligas europeias, as promessas, as histórias de superação, o espetáculo físico, e também nas coisas caras ao destino do país, como a acirrada arena política, o vislumbre da próxima corrida eleitoral, e a projeção das teias do poder pode ser algo tão sedutor! Fiar de maneira elegante pensamentos a respeito das causas, dos caminhos possíveis, dos acordos e associações, dos interesses em jogo. Das tendências nefastas, no lugar de quadro soturno e desesperado, extrair o brilho das virtuosas políticas públicas. Falar de obras com reverência e animação, indicar o que marcou a si, para que continue a marcar, para que os outros também sintam a energia e amor à arte, para que surjam conversas reverentes e animadas. Até que o riso se desenha incontornavelmente artificial, se cala, a astúcia hesita, se vê rombuda, e o que seduzia e animava são movimentos perdidos de algo que é só paralisia.

Se alça à mão um estado, uma situação relatada da vida de um amigo, para o olhar de um pensamento frio, e como então tudo é cristalino, entrelaçado nos desarranjos das coisas da vida embora: sim, apesar do infausto relatado, a partir de um olhar perscrutador da situação se tem os subsídios indicados para a ação bem acabada e redentora. Reside nos conselhos certo destemor cuja nobreza faria rir se confrontada com o seu acanhado mensageiro. Seja como for, não se projeta esse contraste, e as amizades se esvaem por outros caminhos.  

Pela arte, vencer tudo, esticar do lodo o triunfo, escrever inapelavelmente. Se alça à mão a altivez expressiva de um mestre consumado. E foi preciso perceber a tenaz consciência não como uma graça, e o que se pretende saber não altera em nada a cor do céu, cujo amplo horizonte, prenhe de ar revigorante, pelo contrário, pode se tornar inacessível, por ter sido perdido o tato.  

E assim, tenho novamente a carta. Certamente dispõe de palavras de sentido preciso, maduro, foi fermentada num obstinado sentimento de querer bem, que se percebeu nobre. E também talvez seja uma manifestação meramente de literatura, com a disposição e caminhos das palavras a darem voltas que, fora do ofício literato, são supérfluas, tortuosas, confusas, e que talvez coloquem em dúvida a ideia de precisão e maturidade, e o que se pretendeu dizer ecoa vazio. 

E assim, talvez dizer o simples e essencial, de maneira precisa, tenha me escapado, e essas cartas todas passam a ser o hermético perdido. Certas vezes me vêm à cabeça palavras que, ao serem pronunciadas, sinto, viriam a travar minha língua, mesmo as simples e curtas, por se mostrarem de repente tão irreais, por duvidar de seu sentido, e então, no mesmo instante, tento puxar outras. Mesmo que a palavra ideal me venha rápido, de maneira a casar muito bem com o restante, ainda assim algo dá um peso de não dito. 

E assim, não sendo, a rigor, um artífice deste ofício, apenas padeci de sua maldição, e o movimento das mãos e os sonhos fazem a verdade ser mentira, a nobreza, miséria.

Escuridão e rutilância

13/04/2024

E eis que vivi noites brancas. O sonhador, o original, tinha então a mesma idade, vinte e sete. As diferenças são superficiais, sinais dos tempos, ele pôde sentir a realidade acareada, enquanto em meu caso foi forjada uma trilha remota, por mensagens.

Vi dois filmes inspirados em Noites brancas. Um de Luchino Visconti, outro de Robert Bresson. Este encontro de mestres consumados, a rigor, não gera grande coisa. Ou melhor, são obras, os filmes, inconvenientes, se se foca no cerne da obra original, porque é a representação de um estado de sentir com peso de perpetuidade amaldiçoada e velada, e tem de tenacidade e inflexão quanto tem de fragilidade. E assim, não poderia sequer combinar com o esplendor da imagem.

Noites brancas. Na verdade, talvez tenha sido algo muito diferente. Não, emendo: simplesmente não parei para notar as noites, não olhei o céu, apenas prosseguia com os movimentos cotidianos. Mas ao mesmo tempo havia, podia sentir, uma atmosfera diferente e que me era nova. E, entre longos e espaçados intervalos de angústia e espera, de caminhar sem propósito, vivi noites brancas. 

No tombar do momento em que pude avistar, do subsolo, a luz, se formou o patético envergonhado de um milagre natimorto. O devanear de sempre já não pode ser, e o que eram longos e espaçados intervalos de angústia passam a ser uma planície árida e sem horizonte, talvez não de todo desconhecida há muito, mas agora a ter outro peso. 

Era mais um fim de carnaval. No trabalho, havia expectativa de mudança de prédio, de mudança de minha posição também, após o término iminente da residência em gestão pública. O prédio novo seria um aborrecimento, porque a nova localização implica redesenho do errar diário entre e pela cidade, ainda assim, um aborrecimento contornável. Quanto à posição, o novo cargo me traria, sem dúvida, um pouco de sossego, sem tremular contudo a imagem dentro da angústia fermentada do futuro. Seja como for, antever essas mudanças não carregava nada de especial. Até que comecei a conversar com uma mulher. Tinha ela a mesma idade que eu, vivia na mesma cidade, trabalhava mais ou menos na mesma área, sua trajetória até ali se parecia com a minha, também morava com a avó, confessava incertezas em relação ao futuro. A princípio, aquilo se deu de maneira um tanto banal, feito uma bravata qualquer. Depois de uma semana de conversa esquecida por dias, começaram as noites brancas.

E conversamos diariamente por duas semanas, ela respondia no dia seguinte ou no período seguinte, eu sentia o quanto essa troca, sem um porquê, transcorria de maneira franca, humana e sensível, não como um jogo. A um só tempo de maneira franca, humana e sensível e sem um porquê pois eu não podia ignorar o contexto de tudo aquilo, e via a sua imagem, se remexiam em mim sentimentos contraditórios. Ela tinha um sorriso largo, o semblante exprimia saúde, desembaraço, alegria e vitalidade. Quando não estava a sorrir, podia ser observado, nos gestos da boca, mãos e olhos, para além de seus traços retos, finos e delicados e de seu busto levemente salpicado, o desenhar de certa bravura.

Muito dissemos um ao outro. De minha parte busquei depurar minhas falas da incontornável tendência de literato, e embora aquilo não transcorresse como um jogo, não deixava de me causar inquietação, por seu caráter irreal, e por isso provavelmente em minhas palavras havia um excesso inconveniente de pensar consciencioso. 

Ela me disse que não abandonaria jamais a avó e que o mundo odeia idosos. Ela me disse que preferia caminhar, ouvindo as vozes da própria cabeça, a entrar no ambiente de academia. Ela me disse que gostava de ver a vida acontecendo. Ela me disse que relógio era somente para ver as horas. Ela me disse ver coisas boas feitas que melhoraram a cidade, como a reforma da biblioteca municipal, parques, o borboletário. Ela me disse o quanto desgostava das concessões e privatizações do que era público. Ela me disse o quanto acompanhava esportes. Ela me disse que, se tivesse me conhecido antes, iria rir de mim pelo rebaixamento do Santos. Ela me contou em linhas gerais a sua trajetória até ali. Certa vez, ela me pediu desculpas pelo sumiço de um dia, citou vagamente problemas pessoais, citou a correria cotidiana. Na noite final, ela pronunciou meu nome, emitindo o som do c.

E ela me respondeu certas vezes justamente quando eu estava nos momentos mais angustiantes em meio aos lapsos, e em todas as vezes seu retorno era uma boa nova, embora significasse também que, dali a pouco, haveria de enfrentar novamente o vazio, com suas especulações sempre tão severas.

Minhas noites brancas foram uma azáfama de sentimentos contraditórios, é verdade, mas com a vida suspensa, flutuante sobre o cinza diário. Estalou de maneira violenta a percepção de que tudo acabava por se desviar, cair na estupidez vulgar de tudo o mais, mas já não era pela voz daquelas noites brancas.

Há muito buscava dissimular, escapar dos encadeamentos cinzas diários da realidade, inspirado pela reminiscência da grandeza, do sublime. De início, me inquietava sentir o alcance e expressão de uma sonata para piano tardia de Beethoven, de uma sinfonia como a Júpiter de Mozart, sua grandeza, sua perfeição, enquanto tudo o mais era tão acanhado, vulgar, sem acabamento algum. Depois, sentia que aquela grandeza não é fruto de confrontação, tampouco de fuga, mas justamente assim se transformou pela própria grandeza do que é viver, superando a vida pela vida. O altar da arte, o sacrifício, a transformação, seja como for, talvez no fundo esta grandeza me assuste, e me abandono entre a entrega abnegada e a letargia.

Enquanto isso, ocorreu a mudança de prédio do trabalho, a nomeação para o cargo, porém, não, foi sinalizado que, após um mês de férias, talvez aconteça, no prédio novo do serviço, fico no décimo terceiro andar, me habituei logo a subir até lá pelas escadas, no outro prédio, as escadas eram esguias, povoadas de gente, ia em pouco tempo do térreo ao quinto, agora, há um espaço bem largo, alto, vazio, opaco, silencioso, com resquícios de pó de construção, onde não faço tanto esforço, não canso, não demoro demasiadamente e, quando vejo o papel colocado na parede a indicar meu andar, genuinamente desejo continuar a subir, sem propósito algum, sem fecho, no horário de almoço, ando sem destino, em minha mesa, em frente à tela, também retorço o vazio. Vieram então as férias.

Acídia

08/03/2024

Me aplico, de maneira diligente e tenaz, ao trabalho, ou melhor, aos desdobramentos replicáveis e cotidianos de ocupação: levantar, pressionar o espinho da pontualidade, revisar à exaustão as tarefas, antes de sua efetiva submissão. Me inclino, com paciência de boi, a proceder e repisar o quanto for solicitado, maquinalmente que seja, me abrir ao compromisso de me portar útil. Não que me sinta, no contexto de trabalho, insubstituível ou transformador. Não aquilato ação, isto é, o que me é demandado pode ser um completo absurdo, assim como sua execução; é absurdo pedir para que se pule da janela, mas isto é feito de peito convicto. Minha impressão é que, ainda assim, sou muito falho e incompleto e que, no que entrego, sempre há rastro de imperfeição, sempre se esgueira sorrateiramente algum erro. E em todo encontro, em toda troca banal de palavras com algum colega, falta um dizer, falta um sentimento não posto à luz, resta algo sem encaixe.

Tenho meu limite. Tal dedicação não reside em algum tipo de lisonja, esperança, anseio ou ambição. E mesmo que busque, de certa forma, camuflar na pele da competência e da resolutividade, esta conduta não é nada senão miragem. Igualmente, não tomo o trabalho como um jardim a ser cultivado. No fundo, sei que não vale a pena. Meu limite estala na percepção, de premissa, alienada, inteiramente. A um só tempo, sem orgulho, parto da alienação e não acredito na liberdade: a rigor, não acredito que exista solução, nem vejo o porquê de todo esse movimento e inquietação diária. Talvez não exista obra da qual sentir vergonha, desdém e orgulho. Talvez restem apenas o cansaço e a antecipação um tanto que angustiante, no caminhar pelo cinza urbano e pelas portas e escadas do transporte público, do irromper inútil do desejo, a oprimir a consciência.

O dizer sim ou não à vida é implacável, arrasta de maneira inteira tudo que é da vida. Não só a razão, na frieza do pensamento, não só a emoção, só os desejos, só os aspectos da vida circense em sociedade. Sim, tudo isto, ou melhor: não a tudo isto! Se há um pedaço ausente, a vida como que se envenena. 

Mas, há quem diga sim, apesar de tudo, e cuja vocação e entrega me comovem, e sinto em mim o medrar de uma corrente generosa de admiração e querer bem. Talvez seja uma forma de manifestação de amor, com os incrementos outrora perdidos das dimensões amorosas outras. De todo modo, a afeição profícua vacila ante a aparição de certo rancor e ressentimento, e passa a existir uma distância incontornável entre nós. E assim, passo a odiar o que era então tão querido, a querer ruptura, até desejando ferir com meu desprezo. Dizem, tão cheios de razão, que ela, Rachel, encontra, no trabalho, uma fuga; dizem que o trabalho é para ela uma fonte, um meio para encontrar forças. Tolice. Caso se se sentir de fato necessidade de examinar, de dar um veredito a respeito de uma figura desta altura, se deve também não falar em termos tão displicentes. Me limito apenas ao seguinte: Rachel possui uma grandeza própria e anterior, e o trabalho não é uma faceta alheia e segmentada de sua vida: quem é grande não se divide, dizer sim é ser em tudo. No lugar da displicência, talvez em falso sinal de solenidade, busquei em sua grandeza o cultivo de uma vaga e majestosa inspiração; busquei em suas virtudes raras um abrigo, e talvez fosse de minha parte uma intromissão descabida me imiscuir em sua vida, para além da superficialidade cinza da rotina e ocupação. E assim, ao respirar tudo isto, padeço de uma grande tristeza: construí uma figura irreal e intangível — se nota em seu olhar uma placidez distante e profunda; se sente em sua expressão o faiscar de algo interdito em termos imediatos, e o que se tem, na superfície, é a manifestação de toda sua dedicação e do seu sim à vida, quase a beirar a loucura, a exasperação. E então a odeio, desejo transparecer meu despeito, e existem uma fissura, uma distância e, por conseguinte, uma necessidade de se estar longe, sem memórias. Disponho, neste ponto, de um artifício socialmente conveniente: os turbilhões internos trabalham subterraneamente, como sempre, e assim acredito não poder ofender alguém tão raro e especial, por sentir veladamente, e por mais que esteja aborrecido e angustiado, minha afeição por ela — a qual fiz questão de exprimir sempre que possível, apaixonadamente — se mantém protegida nas aparências sociais, mas, no fundo, acredito que não caminho desembaraçado, a hesitação erigida pelo sofrimento cria um ambiente sentimental pantanoso; se sinto repulsa à mera cogitação de transparecer o desprezo, também me finco ao desejo de distância e esquecimento. Mas, contemos a história do Gênesis.

No limiar da consciência, parecia já me sentir inclinado, incontornavelmente, para a solidão e ruminar do espírito. Por óbvio, não é um entendimento linear e sem estilhaços ásperos, tampouco se trata de recusa ou aceitação, e se hesita, nos descaminhos, idas e retornos da vontade, até que se percebe afinal o quanto o ser assim se direcionou, e, de maneira inflexível, foram desprezados os desejos de mudança volúveis e respectivos sofrimentos contíguos a estes mesmos desejos, quando frustrados.

Em minha primeira experiência de trabalho, experimentava a angústia e também o desejo de não ser corrompido pelos maus hábitos e vícios, tão abundantemente escancarados por todos os cantos, e a um só tempo, com sensibilidade aguçada, percebia a manifestação de tais hábitos nos outros, os reconhecia como ruins, antípodas ao que idealizava, e sentia a introjeção tímida disto em mim, como se rumasse também à decadência, como se derramasse o que poderia haver de fundamental em mim. Me concebia diferente, e isto me exigia transitar entre a nostalgia, a negação e a dúvida. 

Durante o período universitário, se armou um patético e tortuoso caminho para que conseguisse um mero estágio. Me restava me apartar no ofício acadêmico, em termos práticos. Nas entrevistas de processos seletivos, sentia sempre o peso de uma penumbra mentirosa, de uma atmosfera farsesca. E é uma mentira diferente da de hoje, aquela me era insuportável e totalmente dispensável. Lá, as palavras ficavam suspensas no ar, tinham o sentido trocado. Percebia alguns de meus colegas a arranjar a carreira de maneira astuta e desenrolada, a cavar deliberadamente frutos futuros. Uns marotos! Se entregavam ao construir deste edifício de maneira natural, a insinuar veladamente a posse do mapa do caminho. Para estes marotos havia o momento de especialização técnica, bem como o do êxtase do prazer, sem que este atrapalhasse a resolução daquele. 

Minha perspectiva era a de um vale nu e poeirento, letárgico, uniforme. Havia o momento de especialização, mas a formação genuína se deu no fermentar espiritual das noites cálidas e do final de semana, pela literatura.

Era muito competente nas matérias — me forjei um trabalhador operário acadêmico –, e a medida de minha entrega correspondia ao afiado desprezo por este ofício. Os textos apinhados de referências e notas de rodapé eram lidos de maneira diligente, enquanto não os respeitava. Hoje, me pergunto se no ambiente acadêmico moderno, caracterizado que é pelo proselitismo e especialização extrema equivalente a de grandes corporações capitalistas — me pergunto se neste ofício é o bastante apenas fazer, ou se deve também acreditar. E assim, ponho em dúvida minha competência enquanto operário da ciência. De todo modo, este quadro patético, durante os cinco anos, não era de todo ruim e desconfortável, podia até dissimular a pobreza de vida com o amor à arte, com errâncias incertas pela cidade.

Na metade final da graduação, me inseri na primeira repartição, como estagiário, em que já incorria na tenacidade da aplicação prestativa e inteiramente entregue, e depois de tanta dificuldade para conseguir algo, pouco que fosse, mero elogio a mim endereçado parecia uma dádiva imerecida, a transbordar uma pressão, de modo que, a partir dali, não pudesse errar jamais. Sentia que todas as trocas e conversas se encetavam de maneira artificial e travada, sempre havia um sabor patético — mesmo se fosse dia, a opacidade do céu sugeria noite. Havia um professor de história, dado à literatura. No almoço, acompanhava a chefe enquanto preparava o cachimbo, o semblante limpo, bem humorado e sóbrio a denotar vitalidade de ação. Certo dia, no elevador, a uma colega comentava ele que finalmente leu, nas férias, Educação Sentimental. Quase que instintivamente, lamentava que ele não soubesse que poderia ter em mim um companheiro de conversa sofisticada — a colega certamente não se importava com Flaubert –, nem que em minha bolsa carregava o primeiro volume de Fausto — provável que teria ele uma opinião engenhosa sobre a obra, inspiradora, a conter inclusive paralelo muito bem burilado ao governo contemporâneo no Brasil. Seja como for, não se saia daquele sabor geral patético, fortuito e impessoal. Ah, como essas distrações buscam alienar o alienado de sua escravidão! Ao diabo os gostos comuns!… a literatura é para mim sobretudo um destino solitário.

Claro, já então sentia como as coisas transcorrem estupida e indiferentemente. Estourou a pandemia, lá estava novamente o cenário desolador da falta de perspectiva. O que me salvou foi escrever. Sem traquejo para as encenações da prática e da arquitetura de belas trajetórias, na escrita posso.

No ambiente atual de trabalho, sinto que me querem bem, sinto certo carinho, os temas objetos do trabalho entusiasmam, tem até um caso de gostos comuns… Recebo tudo igualmente como se nada merecesse, e ao mesmo tempo me ofendem os estilhaços advindos do desarranjo primevo; acho tudo isto uma causa perdida, e não posso deixar a negação e a descrença. Ainda assim, reapareceu até o velho dizer segundo o que tenho um futuro brilhante e que posso mais. Aqui, emendo: sim, talvez, posso, até que poderia — mas, para quê?

Notas de cinema

01/01/2024

A rigor, prefiro Robert Bresson a Ingmar Bergman.

Reconheço a força dramática de Ingmar Bergman, estimo a transposição do grande teatro para o cinema, aquelas atrizes e atores clássicos, a fotografia de Sven Nykvist.

Porém, ainda me inclino para a obra de Robert Bresson, unicamente por tê-la gerado desgarrada de tudo. Sinto isto no ressoar obstinado de passos dos personagens, seja em banal subir de escada, seja em errâncias por corredores, com ruídos de correntes, chaves e algemas — acima de tudo, nas expressões cruas e secas dos personagens. É difícil presenciar um grito, choro. O desespero, o engendramento do mal e a angústia são latentes, distantes. Em muitos casos não se faz questão do desfecho. Um dos filmes, por exemplo, fixa o desfecho no próprio título.

E então sinto que Robert Bresson, de certo modo, concebe inversamente sua obra, porque parte do prosaico desdobrado em devastação, do concreto, da nudez, dos desesperos surdos do cotidiano e da vida entre homens, no mundo, e abre arco para a fé, para o transcendental, sutilmente, sem pregação.

Seja como for, que espetáculo patético, o do ser humano.

Destaco com grande reverência e quase espanto a atmosfera expressiva, coesão e senso de continuidade de O Mensageiro do Diabo (1955) e de Onibaba (1964), cada qual à sua maneira. Na verdade, eis duas obras a atestar a força autônoma expressiva do cinema, como uma música, isto é, boa por si só, avulsa, dispensando até, talvez, palavras. 

Por fim, que dizer de Yasujirô Ozu? Sinto que aqui se tem tudo, e não é como se tivéssemos que adentrar numa gruta rombuda, apertar por entre as mãos espinhos, o sangue a escorrer, para só então respirarmos ar puro. 

Talvez o grande mote de suas obras seja o da intimidade. Isto feito de maneira sensível, e então se passa por recintos de família, conversação contida em bares depois do expediente, quando não temperada pela embriaguez, reuniões familiares ou entre amigos do passado, a rememorar, a dissidir, a pôr em perspectiva uma mudança para o futuro, a tramar algum plano alcoviteiro. 

Diria que Começo de Primavera (1956) é o que representa melhor o que Natalia Ginzburg tratou de maneira minuciosa como o problema das relações humanas: preocupação da subsistência vindoura, os problemas do trabalho, aposentadoria, transporte coletivo, rotina, a agitação urbana, a falta de tempo, a angústia e desejo de mudar a própria vida, o tempo dos outros, o amor, a morte. Aqui se tem tudo, repito.

Adeus

05/12/2023

i. Do discurso da culpa:

— Sim, não nego, eis uma cadência ensimesmada, tediosa e fleumática. Pode denotar outras coisas inglórias. Do lado filosófico, repiso exausto a questão do que é fechado, a associação disto com o caráter do que é demoníaco. Mas, só. De minha parte, o terrível do demoníaco é a crueldade diante do outro, é o massacre, o sangue deliberado, a violência, o escárnio, a humilhação. A acídia, por seu lado, é mero pântano de luz opaca, não hostil a insetos mesquinhos, leito fértil de toda sorte de vida insignificante. E não me imagino transfigurado, as próprias mãos a erigir uma diferente vida. Tanto em termos práticos quanto em termos intelectuais, de nada me servem aquelas belas lições de mestre salpicadas em Grande Sertão: Veredas.

ii. E eis o chacal de olhar arguto. Mas, principalmente, o discurso de ponta afiada, lacônica, o raciocínio abruptamente inteligente:

[Seu aspecto denota certo desleixo, desleixo talvez calculado, à espreita de algo. As mechas loiras dispostas caoticamente e a barba desalinhada compunham beleza selvagem e desarmônica, conjunto a um só tempo sedutor e espirituoso.] – Saiba: você é o único amigo que tenho. Por isto, não pode acidente ceifar a sua vida. Sinto de longe este viver acanhado, sim. E se a fortuna assim permitisse, tomaria a mim o que perdeu.

[Deu que, em uma noite, lá estava a florescer com linhas e cabelos uniformes, aspecto delgado, de beleza harmônica e domesticada.] — Tenho provado do elixir esplendoroso do prazer. Delírios da vida frenética: todo este movimento me cansa o corpo, é verdade. Mas, estou feliz.

iii. A noite era então uma fumaça. Quis ele prolongar o patético espetáculo, e cada detalhe minuciosamente narrado me espicaçava. De repente, senti que tinha ele tendência a ser, agora, prolixo.

Automóveis, mecânicos transeuntes, lojas fechadas, em certos corredores se insinuava iluminação vulgar colorida, provavelmente de prostíbulo.

No tombar da noite, em especial às sextas, paira no espaço atmosfera de despedida. As lojas fecham a persiana, as calçadas de bares se apinham de gente, pelo menos as preocupações cotidianas se amainam um pouco, com o alívio do opresso cotidiano do dia útil, quando não liberado espaço para toda sorte de prazer e delícia.

Antes, as primeiras variações falavam da falta de traquejo, da timidez, e a existência era largada, quase por revolta. Se confidenciava. E os aborrecimentos nos eram espelhados. De repente, os contornos se definiam, e pulsava o florescer de uma forma bela, brilhante. Mantinha-se o mote da face amiga, os abraços e carinhos bem humorados, gracejos, ditos irrepreensíveis, absurdos que fossem. Em suma, amizade, um estar ainda muito aprazível. 

A rigor, o discurso da eloquência retrata uma banalidade. Por que obsedaria? Seja como for, não valem a pena as voltas infindáveis, o giro fraterno não eram senão variações de algo que, de premissa, não pode ser. À face de certa variação se estala a consciência da impossibilidade.  

Afinal então o silêncio já era bem mais pesado do que o que se tinha a dizer. E o ar noturno não abrigava sentimento inebriante de aventura, tampouco estar desembaraçado. Era simplesmente fumaça. Buscava somente fugir, ignorar por completo a existência de toda aquela armação circense. Encerrar a própria persiana, mergulhar na pausa como se fosse no vazio do fim.

Juro não saber se adeus em alemão, em francês ou em português tem dimensão, peso diferente.

Dentro do adeus não sinto o descortinar de drama ou a solenidade de discursos e de justificativas. Apenas rememoro dia em que o entardecer subia preguiçoso, o ar verde revigorava o peito, havia a estimulante possibilidade de se deparar com riachos e berços da natureza, e o corpo cansado não fazia tremer a plena tranquilidade de tudo o mais, a absoluta franqueza e estima recíproca, o sorriso sem sombra.

Rachel

16/09/2023

Cada um reluz naquilo em que se esforça,

ocupando-se com isso a maior parte do dia,

onde ele seja superior a si mesmo.

— Eurípides.

Rachel, peço licença para cometer este ato antiquado de lhe escrever. Afinal não há distância de estados e países entre nós, nem faltam meios virtuais de mensagens instantâneas. Para piorar, como pode ver, não é algo feito à mão, e sim forjado nesta folha impressa comum, corriqueira, de traços impessoais e frios.

Seja como for, devo dizer que tenho absoluta inabilidade em coisas práticas e concretas. Busco apenas proceder com seriedade e tentar sobreviver. As letras me são desde sempre fundamentais. Sei que escrever me salvou em termos de sobrevivência material, ao evitar o absoluto fracasso nas coisas da vida. Contudo, a rigor, não tenho tal propósito, de triunfo. Pois sinto que o ofício da expressão é o único que me cabe, em tudo. 

Posso integrar ao sopro ondulante da vida uma seiva expressiva ao prover de ponta a ponta, do começo ao fim, os contornos, ao moldar as justezas e meandros das palavras, ao tecer com os dedos repassados de pó cada curva, entreato e suspiro. E assim, só pela escrita conseguiria exprimir algo digno do que você representa, Rachel.

Já me perguntei diversas vezes como você consegue ser tão boa, como consegue, mesmo nos cantos mais inóspitos e áridos, espalhar tanta inteligência refrescante, tal como se chamasse à luz o que há de melhor e mais inteligente em cada um; não é de forma alguma aquela sabedoria que para se destacar precisa subir por sobre os ombros da mediocridade; tampouco aquela sabedoria que confunde grandeza com soberba altivez. A sua sabedoria, Rachel, reside na generosidade e se distingue não em termos de política, diplomacia, hierarquia, posição ou cargo, mas em termos de virtude pura. 

Você me instiga a voltar a acreditar na possibilidade do valor em si das coisas. E assim, certas coisas seriam intrinsecamente virtuosas. Confesso que, mesmo quando corriam dias sem que nós nos falássemos, ver através do vidro que você estava presente, em sua mesa, me fazia perceber o ambiente de maneira diferente, como se o salão com você tivesse mais ar, por conta desta sua virtude tão generosa.  

Só se mantêm alheias à sua energia as pessoas há muito petrificadas pela indiferença. Convidando os demais a serem melhores, só assim talvez todos os outros possam de alguma forma ensaiar em si esta virtude que é própria a você. 

E então, ao sentir isso, não me pergunto mais o porquê de você ser tão boa, passo apenas a reconhecer e admirar. E a sentir o quanto este tipo de virtude é o que, a rigor, vale a pena nesta vida.

Há a lenda de aprendizes que copiavam exasperadamente os escritos de seus mestres, de modo que, perto da grandeza destes, passassem a ser grandes também. Nossa época, principalmente no âmbito acadêmico, repudia a ideia de inspiração, cópia. De minha parte, não a nego, a cópia, por questionar o mérito, mas pelo fato de que meus gestos de copistas de nada adiantariam, não passariam de mecânica estéril: não há como ser que nem você, Rachel, só teria sido como tu se tivesse sido tu.

Pois bem. Me limito, também, a lhe agradecer, pela companhia, parceria, generosidade, acolhimento, paciência, escuta, sensibilidade.

Não pretendo algum tipo de marca própria, projeto, reputação, glória, palmares etc. A rigor, nada fiz na repartição sem a sua influência direta. Você foi fundamental neste período todo, e se não fosse você estaria ainda mais perdido. E isto me basta.

Sei que você de certa forma, ao estar na repartição, pelas circunstâncias todas, se encontrou em espécie de exílio. Me vem à memória uma frase que me disse certa vez, no carro, sobre tudo, neste mundo, “ser tão superficial”. Sim, esses desdobramentos têm uma cadência em geral mesquinha, grotesca, sem sentido, injusta. 

Nessa linha, Bach escreveu:

“Quando as coisas estão bem, considere que elas podem ficar ruins; e se estão ruins, podem se transformar em boas. Não presuma que as coisas vão caminhar da forma que você quer. Aquele que se preocupa em fazer as coisas serem da maneira que quer só terá tristeza, desassossego e dor no coração”; “aprenda a conhecer o mundo. Você não vai transformá-lo, ele não vai evoluir de acordo com você. Acima de todas as coisas aprenda e saiba que o mundo é ingrato”; “o que é esse mundo senão um grande espinho que temos de remover nós mesmos? Esta terra é o reino do diabo”.

Demoníaco ou angústia diante do bem

30/07/2023

I. Gosto de uma coluna de Manuel Bandeira na qual ele fala da origem de seus traços faciais, o nariz a remeter ao pai, a boca, à mãe. Por outro lado, já me é um pouco complicada aquela ligação familiar de Lavoura Arcaica, a tratar da história da família como que dividida em raízes de árvores diferentes, e então haveria o lado da mãe e o do pai, forças quase que espirituais e a contornar tendências e ações dos galhos nascidos, e então o desenrolar grotesco todo acaba caindo por sobre as costas da mãe, suposto ventre de inclinação malsã. Ninguém negaria a força do temperamento e humor herdada, mas aquilo me soa forma de se eximir da responsabilidade pelas rédeas da própria vida, porque a rigor a espada a pender sobre cada um não tem par.   

Meu pai, quando trabalhava de motorista de ônibus, ganhou a alcunha de “zangado”, personagem do desenho. Meu pai tem a alma simples, em que se incute estreito contentamento, e, incomodado este, esfumaça aborrecimento rombudo. Talvez tenha em tal aspereza a origem de meu ser introspectivo.

Nietzsche chegou a desprezar sua origem, tanto germânica quanto familiar, inventando ligação que teria com a Polônia… De minha parte, minha pátria é o país onde não estou. Não busco atavismo tal qual buscasse o que melhor fosse me apetecer segundo a perspectiva do que me tornei. 

II. Erguer-se pelos próprios cabelos. A um só tempo bater o escanteio e cabecear a bola. E me atino que não foi o bastante, olho ao redor, sinto o espaço, repiso o estar cotidiano — certamente me imiscuí, estou num lugar que me é distante; distante não em termos de progresso ou conquista, mas sim porque percebo incontornável desconchavo crônico, algo que jamais pode se encaixar completamente. Para que se erguer novamente? A inquietação e esperanças de todos os dias tiram todos os dias de seu lugar, o tato como que serpenteia aéreo, perdido, e a paleta, catálogo de ações, dos assuntos, febres e modas, dos hábitos e vícios, bem como sua negação, formam espessa água em que perpasso superficialmente, tépida apenas e não suficiente para abrigar. 

III. Pórtico majestoso para os heróis, canapé, céu e mar amplos: a grande aventura. Odisseia, não importa a variedade em meio aos estendais de traduções, transmitida às idades, transportando a glória passada. Tempo de ação. Até mesmo o cachorro de Ulisses é um artifício de eternidade.

III. Observo bem os vitrais de tal castelo erigido no ar. Sentir e buscar transportar a grandeza sem ser grande.

III. A grande aventura. Desencontros de uma coisa complicada, privação, ímpeto sanguíneo, contornos de silhuetas femininas, cintura, beleza formosa que promete felicidade, toda ternura do carinho, toda sorte de delícias, também delírio, exasperação, código íntimo e velado de palavras de namorados, gracejos, compreensão e antecipação do outro, receituário das boas práticas, ditos populares, caça, conquista e encontros fugazes e fulgurantes: o êxtase.

O tribalismo do sexo aludido por Rilke — sim, no mesmo terreno da apologia da solidão, longe dos ruídos e batidas de relógios da cidade, para espécie de apoteose, transcendência, revirar-se, emergir em meio ao pântano, saltar, e surge, pois, Deus –, e há as viagens reais para países vários, o trato agradável e amiúde rodeado por mulheres, uma vida concretamente prazerosa — cada lugar novo visitado certifica um grande poema, para cada amor um aprendizado. 

III. A palavra que vacila, sentida, os contornos de lábios que a pronunciam repassada de alma, com o peso de uma morte absurda, pórtico de sofrimento de dimensão incomensurável. E a isto jamais linhas e revelações de abóbada altaneira, cuja pintura retrata o engenho da criação divina, por sublime que seja esta, poderão conferir um mínimo de propósito. Com que propósito uma vida tão nova e inocente é ceifada? Não pode haver, mesmo se séculos fossem segundos. Em termos terrenos, certamente escreveram por aí manuais de boas práticas diante do luto. Como tratar em terapia etc. Ou mesmo visões filosóficas sobre a morte. Fórmulas vazias. A palavra se curvou, espreitou-se externamente um pesar que atravessa outros mundos, uma saudade sem redenção concebível. 

IV. Volve-se o bem espicaçado e humilhado, as mãos do assassínio operam o moinho satânico da oficina dos fatos e do cada um por si: a maldade humana e o maníaco destruir contornam a funesta dança.

A rigor, de cá para cá, paira o sentimento de que não vale a pena. Pois bem. O decaimento material, as incertezas e condições concretas ditarão a rotina, rotina esta tenaz e frágil, espetáculo patético de esperança e desânimo, de tentativa e cansaço, de vergonha, dúvida, de sofrimento e conforto, de teimosia e timidez e resistência e colapso.

Carrego a nostalgia e aspirações de uma grandeza perdida e amaldiçoada. Ah, sim, amar, beber e cantar: o esplendor de cenas sobrepostas e mensageiras da plenitude do ser. Amar, beber e cantar. O esplendor. Amar, beber e cantar. Altíssimo criador da vida…

Hamlet ou Ivánov

11/07/2023

Em meio aos fragmentos de uma noite ruim, no leito, estala o pensamento de que, de repente, deixarei de ser. Não o identifico enquanto instinto animal a faiscar alerta para a sobrevivência material do corpo. Deixarei de ser, mas não só. O ar, o espaço, as montanhas: nada. Para muito além do arco ao redor de carne e pulsação, eis a completude, a dádiva cujo ocaso não deixa sequer ruínas. Descanso, libertação? Mas, tais estados partem de seu opresso contrário, nada sendo, enfim, se se deixa de ser. O nada anula absolutamente tudo.

Ah, como repetem por aí, quase que mecanicamente, o “ser ou não ser” de Hamlet. Parece até um chiste, uma piada, um jogo de palavras, e não se chega nem a aparentar que todo mundo que o cita evoque de fato o seu real contexto, de irrequieto e sombrio questionamento alusivo ao suicídio. As questões existenciais soam sempre de maneira jocosa, deixadas de lado, tal qual postura quase sempre inadequada ao momento, quando não delegada às mãos especialistas — a partir do que se diz que a terapia está em dia, então tudo certo. E são as questões mais decisivas. 

Lembro-me, pois, daqueles livros de capa dura segundo os quais a alma é irredutível, e das palavras altaneiras, dos desencadeamentos do pensamento sofisticados, costurados por mestres consumados da humanidade e criação. Pululam por aí todo tipo de vulgaridade sobre Deus e fé, e da mesma forma não pode ser que as grosseiras e incultas pregações, as demagogias e mesquinharias terrenas, sob a roupagem de crendice estridente e puída, disponham de algum tipo de simpatia divina. Antes a simplicidade do bem, as pequenas coisas e os seres que conseguem amar plenamente, em meio aos destroços de quem perdeu a vida sem morrer.

Tempo dos outros

01/06/2023

Cidade sonhada a um só tempo de um frio quase que tangível e de esmagadora sensação de solidão, o relógio do poste sem os ponteiros, a carruagem de rumo desengonçado. E baixou o dia de fumaça e céu turvo, mensageiros de queimadas pelos cantos amazônicos e perturbações atmosféricas. Certamente circulam fotografias e relatos de tal incidente do dia noite, traçam um cenário assustador. Porém, a rigor, nada espetacular houvera. Embora a sombra se assomasse pelo concreto e frinchas dos edifícios, o céu plúmbeo pesasse, e aquele ar abafado opresso na garganta, tudo se desdobrava banalmente, cumpriam-se obrigações, horários, marcava-se a presença, a vontade ainda pulsava. É um cotidiano familiar, com incerto e pouco contorno de diferença de espaço e sentimento, tal qual quando estoura uma chacina, ou mesmo boatos de roubos coletivos, e pode ser até que as ruas fiquem mais furtivas, vazias, que os transeuntes vacilem, olhem desconfiados para todos os lados, rumem à lotação em grupo, um suspiro por esquina ou reminiscência. Dias do cotidiano, repetidos até que de repente ocorre algo, incontornavelmente em vestes banais. A cidade amiúde reproduz dias cinzas, basta percebê-los. Os desdobramentos da ação podem dar em espetáculo patético, maus pensamentos e amargor fermentam, toda sorte de ingratidão e abandono, mas esta mixórdia de sonho e concreto também toca vontade de grandeza, até a morte. 

Voz divina entre ruínas

08/04/2023

Certa vez o Professor me disse que aquele meu estágio infortúnio era, apesar de tudo, um aprendizado. Disse a ele que preferiria aprender lendo Hegel, ao que se rendeu, abriu os braços e riu. 

Talvez nada além de bazófia, afinal passava semanas em meio aos livros, na biblioteca, depois em casa, de maneira austera, e nisto me inquietava a completa ausência de vida. 

Por outro lado, o outro, o professor, ao perceber certo despeito meu à academia, acudiu que o mercado era bem pior. E ouço então este apelo à proatividade, à resolução, a conversa técnica e estrita, vivo as hierarquias — sinto que não há saída. 

Este desassossego uno ecoa da teimosia envolvida no viver. Não me reconheço nestes vitrais exuberantes, nos mosaicos engenhosos em seu decaimento, na iminência de novo elixir do gozo, nos horizontes límpidos do futuro. A ação me é totalmente prescindível. Gostava de erguer a barriga para cima, esperar a eternidade.

O mundo é a oficina do diabo. Não adianta querer mudá-lo, exasperar-se diante do mal, da ingratidão e da doença. Mas, por ser justamente desencadeamento frio e implacável, o futuro se projeta taciturno e desolador.

Graciliano escreveu que, no lugar de volver a barriga para cima e esperar a eternidade, devia escrever sua obra. Fê-lo. A última obra. Sem fecho: o cárcere já havia sido escrito, e ele já perambulava pelas ruas, porém não houve propriamente um final. Viera-lhe a morte. 

Uqbar, eis uma pasta para arrolar as pessoas que me fazem cultivar sentimento de reverência. Lá estão inclusive pessoas de meu convívio atual. Reverenciar e amar sua grandeza não me ensinam nada, embora mestres consumados. Aqueles aprendizes que copiavam exasperadamente os manuscritos de seus mestres para, íntimos e contíguos à grandeza, sorvê-la instantaneamente, tornando-se, de repente, eles, mestres, detinham algo a mais. Meus gestos de copista não passam da mecânica estéril. 

Destaco, pois, a ação toda enquanto descartável, a maestria infértil, o porvir vacilante. A falta de consolo contorna sentimento de desprezo, inofensivo, é verdade, apenas a, cada vez mais, acentuar um amargor interno, quase que tangível. Este despeito me é de uma agressividade terrível.

Certa vez faziam votos, desejavam-me bons dias. Nada digo. Apenas meu desprezo  — que talvez transpareça; desprezo a isto, que não me apetece, de forma alguma. 

Ao meu amigo Wolfgang Amadeus Mozart

25/02/2023

Embora esteja a música bem ao lado da alma, a falar sua língua, tenho a consciência de que só a literatura, com clarividência assustadora, dá as linhas de minha vida. Vi meu infortúnio no de André de O Coruja. A música guia o sentimento, mas estes assomos espirituais de grandeza e sensibilidade são castelos no ar, a rigor. A vida são minhas circunstâncias, rotinas, contextos.  Vêm-me à memória, assim, aquelas passagens intrincadas de O Castelo e, sobretudo, de Amerika. 

Basicamente, Karl trabalha de ascensorista, é espicaçado pela organização dos homens e pela vida a esta ligada. De repente, estará destruído, não sendo necessário final para isto — desaparecerá feito folha em meio aos desencadeamentos inextricáveis do porvir. Sim, mas isto não quer dizer que Kafka retrata um ambiente totalmente seco, ríspido, sem afeto e compaixão. Pelo contrário, nas frinchas de seu fado, lá estão a bondade e carinho ao Karl direcionados por sua chefe. Com zelo, o trata bem, quer lhe um futuro bom, sem nada em troca. Frinchas, porém: o desencadear lhe é incontornável, a queda, certa, debalde tudo o que se pode ter do bom e do belo.

Sempre fiz pouco caso das dedicatórias, sessão de agradecimentos, miniaturas de teses e dissertações, as via como mera hipocrisia, epígrafe a anteceder torrente de impessoalidade. Certa vez me encantei ao achar um livro na biblioteca da faculdade chamado “O meu mestre imaginário”. Fiquei decepcionado ao ver que, logo de dedicatória, havia a alusão ao Silviano Santiago, justamente, nas palavras do autor do texto, seu mestre. Ora, conversa fiada, afinal, se Silviano Santiago é mestre, então não é imaginário. Insuperável e genuína dedicatória é a do Murilo Mendes:

ao meu amigo

Wolfgang Amadeus Mozart 

Porém, acabei por fazer dedicatória. Em trabalho de menor relevância do que mesmo uma dissertação. Seja como for, não poderia não fazê-lo. É a uma pessoa de valor inestimável, cujo temperamento e entrega aplacam o absurdo do mundo, porque na sua grandeza o absurdo é vencido. Seria isto uma ilusão? Presumo que não se trata de trajeto fácil, destituído de arestas colossais de sofrimento, mas vejo em seu olhar o triunfo da vida.

Antolhos

30/01/2023

Manuel Bandeira traz a brilhante ideia de que a obra Helena fora escrita em meio ao sentimento de ambição de Machado de Assis de ascender socialmente De fato, muito inteligente. 

O próprio Machado de Assis adverte sobre o tom da obra, “correspondendo assim ao capítulo da história do meu espírito, naquele ano de 1876”.

Por exageradamente que soe o idealismo deste livro por vezes, há um sutil e perspicaz retrato das relações sociais. Machado de Assis nunca precisa patentear a sofisticação de seu olhar, e está tudo lá. 

E viver em sociedade se assemelha a pisar entre estilhaços pontiagudos, exige traquejo, dizer o contrário do que se sente, fazendo isto como que por reflexo e, a um só tempo, a adivinhá-lo em outrem, fingir, erguer-se pelos próprios cabelos, sobreviver. Qualquer movimento abala suscetibilidades, antecipa vontades, projeta inextricáveis novelos de reação, não havendo limites inequívocos entre as coisas, entre o gracejo e o escárnio, entre o ser lacaio e o prestativo, a resistência e o colapso, entre a resignação, a paciência de boi e o desprezo vulcânico.

Doce maldição: os antolhos, no fundo sinto, nunca saíram de minha face. Pois bem! Já era o tempo, afinal tal consciência é a única vida que me é possível. 

Como exigir exatidão e verdade em coisas sociais sendo que, no âmbito da existência, o abismo não está longe do altaneiro? 

Não importa. Antolhos. Como houvesse sempre sozinho, parar de falar com alguém não representa nada. Na verdade, de quando em vez pululam algumas reminiscências dispersas, mas ruem ao vento, dissipam-se tão logo vencida a irrequieta insônia.

A sensibilidade não está morta. Uma carta reverenciava, cultuava os bons sentimentos de amizade e de amor. Tem seu valor literário até, mas em termos práticos não tem razão de ser. E que assim seja!…

De certo, este pórtico poderia ter maior graça, efusão e afeto. Contudo, levanto-me, a brisa me afaga as dobras da máscara rija, e todo o caudal de confusão soa como irrelevância zombeteira e desimportante diante dos alinhamentos perfeitos e acabados da criação.

O funcionário do rei

 04/12/2022

i.

Hammerklavier e Quarta Sinfonia de Brahms revisitadas: a cada retorno me estala o pensamento de que seus movimentos, para além de estruturas e passagens propriamente formais, calcadas num valor musical em si e puro, são estados de reflexão e sentir.

No andante da Quarta, depois de turbulência, há como que a elevação de um zumbido, de uma lufada, e a princípio é relaxada a tensão, porque surge logo em seguida recapitulação de tema anterior do modo um tanto que acidulce, a soar como sentir que, depois da abismal aflição, a um só tempo denota resignação e olha para frente — que se prossiga o caminho, com a marca da gravidade talhada na alma; porém, este sutil e dorido alívio é perturbado por passagem ameaçadora e pesada ao final. Há muito sentia o terceiro movimento um tanto fora de lugar, isoladamente valoroso que seja: em meio à atmosfera da obra, me intrigava esta intromissão festiva. Mas talvez opere, no caráter festivo de tal movimento, oblíqua inquietação, uma prenda de embriaguez, distração de circular delírio para, intuindo-se no germe o teor do último movimento, arrebatar um pouco o espírito de tanta severidade, tal qual oráculo que, antes de evocar o terrível, convocasse festa. 

Ocorre nos movimentos extremos (inicial e final) uma relação de sentimentos parecida, mas há ponto final. O primeiro exprime paragens cuja beleza é frágil e edifica, e o seu curso se dá no estreitamento imposto pelo caráter inadiável do fim, pulsando a gravidade e o desespero que contornam tal fecho. A gravidade frente ao curso irremediável evoca uma grandeza de espírito, e segundo uma ideia velha de Nietzsche tudo o que é grande acaba por, em sua própria grandeza, engolir-se. No quarto, a obra representa continuidades e quebras, repetições e revelação, sua atmosfera é de uma queda sob formas arcaicas.

A Hammerklavier me sugere outros estados. Representa uma tristeza pura e genuína, profunda, não a refletir um desencadear trágico, ou uma turbulência interna, tal qual o próprio quarteto Serioso. A força do primeiro movimento não é trágica, soa como uma grave demarcação de espírito, pois, a partir dali, a atmosfera repele o que é mesquinho e não sério. A mudança de tonalidade, operada a partir da repetição, no primeiro movimento, do tema principal, ilustra a impossibilidade de retorno: é tempo de decisão. E por mais que seja eloquente e assertivo o primeiro movimento, exprime em seus flancos certa melancolia. Depois do scherzo cortante, do adágio dorido, com escala majestosa, mas íntima e profunda, suspensa tristeza com fio de senso de continuidade, surge a expressividade plena do ser, como se emergida do abismo da angústia a plenitude do ser fosse.

Diferenças que tenham, o senso de continuidade e movimento faz destas duas obras expressão de estados. Expressam muito da vida. Não importa tanto a direção do desfecho quanto a seiva humana de expressividade dos estados.

Beethoven não gerou uma obra desesperada — em seu desfecho — como a de Brahms, pois levanta a outro estado a expressão nascida nos vales da angústia. Por seu turno, a Sinfonia parece ser mais universal, ao não ser um sistema tão íntimo e hermético como Hammerklavier. Se a tragédia sintetiza em um personagem a queda trágica do gênero humano, o intimismo da sonata abriga uma história de um deus singular e solitário.

ii.

Um dos motes de Inferno, livro de Strindberg, é a ideia de que a origem humana parte de um estado de beatitude, doçura máxima, divina. Se é verdade que tal lembrança acossa a melancolia, a nostalgia, ao serem contrastado os dois estados — a beatitude frente ao duro presente –, essa consciência também é uma base, latente que seja, por sobre a qual repousa o turbilhão angustiante das aflições terrenas e das agitações sujas da vida urbana, a fazer arco até encontrar certo repouso desse mesmo mundo na conversão final, ou mesmo a quietude decorre simplesmente do fecho narrativo, a estancar a opressão. Kierkegaard se detém na questão da origem humana só de modo a nos equiparar a Adão em essência, e embora o desenrolar teórico seja esmiuçado, a questão lhe parece ser secundária. Seja como for, fica em aberto, e ele assim o assume, a ação da serpente, o que poria em contradição a possibilidade de não enganar Deus. Em suma, não temos uma origem sublime, não temos para que nem o porquê de retorno. Pelo contrário, o que temos de grandeza está no porvir, necessariamente atravessada a vida, necessariamente por meio da angústia.

Como clássico de filosofia, até se tem embates conceituais, como no que toca a Hegel. Da mesma maneira, quase sempre não são lisonjeiras as suas palavras sobre seus contemporâneos, mostra-se mesmo uma insatisfação pela sua época. Porém, são questões secundárias. Também com o conhecimento teológico. Kierkegaard chega a comparar monges austeros a rebeldes descrentes — os dois seriam demoníacos, isto é, angustiados diante do bem. Embora empunhe as espadas da luta erudita, o cerne, o porquê do conhecimento em Kierkegaard repousa noutra coisa.

Senso comum e ditados são bem mais frequentes. Para as questões terrenas, não raro diz que o bom senso comum geralmente dá conta do assunto. Mesmo para retrato de estados.

Alguns pensadores aparecem. Por outro lado, as referências da arte têm um respeito maior, em especial as histórias dos Irmãos Grimm e Shakespeare. Enquanto referência intelectual de suas obras, Sócrates tem maior força — como chega a citar Platão especificamente, vê-se que Kierkegaard tinha certa noção das complicações de se repartir o que é Platão do que é Sócrates, tanto que se mostra muito crítico a Xenofonte, uma das vozes de Sócrates. Contudo, em primeiro lugar, separa a visão de mundo cristã, da qual pertence, da pagã (cujo ápice é a grega, a época sua contemporânea rebaixada frente a ambas). Em segundo lugar, outro tipo de referência fundamental são eventos artísticos observados in loco por ele, como exposições, peças, circos itinerantes.

Mas, sobre esse lado de construção da tessitura do texto, nada é mais relevante em Kierkegaard do que o exemplo. O funcionário do castelo que, de tanto distribuir o cartão do rei, se esqueceu de quem era. O médico do hospício inclinado a achar que não está sujeito à loucura. O simples aldeão à espera da mensagem do rei. O pregador que só pela seriedade consegue repetir o alcance de seu sermão. Espiões, juízes, policiais, funcionários etc. São espécies de miniaturas narrativas: não desviam por muito da linha narrativa, antes as reforçam. Talvez por isto um livro denso seu, com várias camadas, tenha em termos de extensão poucas páginas. E apesar da coerência dos conceitos e desdobramentos, não se atém muito em um ponto.

Kierkegaard não simplesmente escreve. Nunca a atividade intelectual soa como algo banal. É algo decisivo, crucial. É integrada a uma visão de existência, envolve a fé. A tarefa e o dever do pensamento não prestam conta para homens, fincam o olhar nas questões de ordem existencial, cuja repercussão passa pelo alvedrio espiritual próprio. No espírito, afinal, ocorre a batalha, ocorre a conquista da vida. Não tem importância a flutuação da opinião, pois o que move a atividade intelectual diz respeito à espada por sobre a cabeça de cada um.

iii.

A reminiscência da grandeza assalta os momentos banais. Por vezes, retorno da padaria apenas, e reverbera no ar defronte de minha cabeça o nome Hammerklavier. Aparentemente, por vaidade fingida do intérprete ideal. No fundo, contudo, me move indiretamente a lembrança de que um homem criou aquilo — compartilho de sua condição e, por isso, de sua grandeza.

No instante seguinte, o discernimento básico e mesmo prosaico aponta tudo isto como vãs fulgurações, pois não podem tais elevados sentimentos, em absoluto — sim, a ambiguidade da expressão –, parar de pé, diante de toda a realidade e sua agitação.

Ou antes: a realidade me é indiferente. O que ceifa vem de dentro, e a tarefa é deveras pesada, o desafio soa demasiadamente desbalanceado desde sua premissa, não se pode saber com exatidão a diferença entre a redenção e o terrível.

Interdito

 05/11/2022

A urna a velar pela vergonha de repente encerra quem, em surdo desespero, lá a depositou. E então todos os cantos não deixam esquecer.

Escapam-me da memória as palavras certas e as ideias caras, antes tão argutamente dispostas.

Mas que tipo de infâmia seria esta? Pois bem. Nada condenável. Ou melhor: sua razão de ser já está pressuposta, mero acidente sem volta, cujo absurdo de partida anula todo o porvir, assim forjado em pedra, tornando a si e o mais bagatelas.

Têm uma classificação pronta, sob o peso do estigma e fracasso. Contudo, isso é apenas sua face menos relevante.

O asfalto da rua certamente escorre as bolhas copiosas e infantis de uma chuva cinza. As vestes fantasmagóricas do ar levantam a placidez do cair da noite, abraçada aos edifícios outrora portentosos, agora pedaços irreais sonhados. As semanas, também, se amontoam num curso desajeitado e implacável; a inflexão do tempo é um campo largo. Talvez até se deflagre outra pandemia, mesmo fatos memoráveis e grandiosos.  

A rigor, sim, o espicaçamento é aquele vazio latente e ao mesmo tempo tenaz de angústia. E fulgura e fica maior em contato com a magnificência das abóbodas da vida espiritual. Esta desde muito precisou e teve de se erigir no culto da grandeza enquanto única certeza, e há como fruto cadeias de sensibilidade, amor e viço. E desabam, no chão são pó.

Aquele malfadado interdito desagua no sublime, e os imensos bons sentimentos soam como vã riqueza, emergindo-se seu inverso ordinário, tremulam sob o amargor e a estupidez do desejo.