Cor

26/10/2024

Gosto de dicionários. A princípio pelo gosto da palavra em si, isolada, depois pelo hábito da literatura esconjurado em minha vida. 

Meu primeiro dicionário grande foi um Houaiss, quando logo percebi que a referência da linguagem não estava toda ali. Havia presumido que um grande dicionário encerrava o universo possível da expressão, conformando, até, nomes de heróis do mundo antigo, deuses, lendas, ritos, lugares, coisas de enciclopédia afinal. Pois bem. Como esperar tudo isso de dicionários? 

Ainda assim, ainda gosto e preciso de dicionários.

Antes tinha o costume de anotar palavras diferentes que me capturassem a atenção, de modo que pudessem ser incorporadas na minha escrita eventual, é verdade, mas no fundo já pressentia que era algo inútil, fechado a si, poça no quintal, lâmpada azul de berço da infância perdida.

Também me entretinha perceber como determinado escritor deteve, durante recorte temporal de sua escrita, predileção por uma palavra ou outra, e então em certos trechos sobrepostos se repetem “defronte”, “caceteação”, “circunlóquio”, “ramerrão”, “desconchavo”, “prosaico”, “tiririca”, “requinte”, “esbater”, “fruste”, “senão” etc. Mesmo que inseridas em contexto sério, tirava disso uma ligeira diversão.

Preciso de dicionários pela necessidade de se atenuar e dissimular a inevitável ferida da ambiguidade, da imprecisão e da impotência do dizer. Objetiva que seja a fixação dos significados, atenta que seja a recepção, concentrada, sinto que há demasiado desentendido, brecha, vácuo do não dito, nas banalidades mesmo das conversas e desencontros da vida. Na escrita, pelo menos, melhor se pode buscar o definir preciso e justo. Mesmo aqui se fracassa.

E estico o amor cultivado pelo engenho da palavra, solta ou em arranjo, até seu limite deitado em fumaça e confusão, até a dor das ruínas da expressividade, e entre o pó que fica tudo é malícia, vaidade e fantasia.