05/11/2022
A urna a velar pela vergonha de repente encerra quem, em surdo desespero, lá a depositou. E então todos os cantos não deixam esquecer.
Escapam-me da memória as palavras certas e as ideias caras, antes tão argutamente dispostas.
Mas que tipo de infâmia seria esta? Pois bem. Nada condenável. Ou melhor: sua razão de ser já está pressuposta, mero acidente sem volta, cujo absurdo de partida anula todo o porvir, assim forjado em pedra, tornando a si e o mais bagatelas.
Têm uma classificação pronta, sob o peso do estigma e fracasso. Contudo, isso é apenas sua face menos relevante.
O asfalto da rua certamente escorre as bolhas copiosas e infantis de uma chuva cinza. As vestes fantasmagóricas do ar levantam a placidez do cair da noite, abraçada aos edifícios outrora portentosos, agora pedaços irreais sonhados. As semanas, também, se amontoam num curso desajeitado e implacável; a inflexão do tempo é um campo largo. Talvez até se deflagre outra pandemia, mesmo fatos memoráveis e grandiosos.
A rigor, sim, o espicaçamento é aquele vazio latente e ao mesmo tempo tenaz de angústia. E fulgura e fica maior em contato com a magnificência das abóbodas da vida espiritual. Esta desde muito precisou e teve de se erigir no culto da grandeza enquanto única certeza, e há como fruto cadeias de sensibilidade, amor e viço. E desabam, no chão são pó.
Aquele malfadado interdito desagua no sublime, e os imensos bons sentimentos soam como vã riqueza, emergindo-se seu inverso ordinário, tremulam sob o amargor e a estupidez do desejo.