24/11/2024
Tenho medo daquela mulher. Faço de tudo para não estar em seu campo de visão, quando existo, alheio, no seu caminhar ritmado.
Bem sei que, com seu vigor, força e inteligência, pode demover poderosos de tramas malignas, não se submetendo jamais à oficina grotesca dos fatos, e que em sua ação, de ponta a ponta, se impregna uma energia de luta e bravura. E eis que há curta pausa do labor, o intervalo, e de repente me posto diante dela feito um naco de sombra vacilante ao passar de comboio — que segue, segue.
Bem poderia ela escancarar todas as minhas falhas e pequenezas, projetadas constrangidas à visão rutilante de suas virtudes, e seu desembaraço e vivência constratarem com meu travamento e inexperiência. Na prática, contudo, é como se sua piedade se limitasse a relevar o patético de um sorriso pardo, se limitasse a não fazer notar o sabor da insipidez, gentileza sem gume em meio ao espicaçamento antecipado em delírio. De todo jeito, seja na irreal visão malsã, seja no cotidiano concreto, já de pressuposto carrego lamentações de outrora, estremeço.
Apitos, fumaça, poluição no ar, o transtorno ruidoso de caminhos múltiplos, e então se me encorpam reminiscências de episódios simbólicos, faíscam enquanto dor do que foi perdido. A chuva cinzenta, o quintal de abrigo transitório, a casa já a ecoar palavras de família, embates banais, e lufadas ameaçadoras no espaço intercalam com a esperança puída de estio. O quintal era uma proteção a exprimir despedida — como pode ser o que abriga adeus? Lá o mau tempo parecia não ter trégua. Até que tem fim, e as palavras seguem a ecoar nas paredes do lar que me é alheio. O que dizem? O olhar recai por sobre o amontoado de coisas pelos cantos do quintal, das árvores dispersas ainda se faz chuva, na cabeça estala uma febre latente, no coração o peso de estremecimentos desconhecidos.
Se ela afirmasse, não me despertaria da negação, se ela acreditasse, não me livraria da dúvida.