Bagatela

11/10/2024

Os movimentos e desfechos da vida banal são em mim assomo desajeitado, derrubar de louças, esbarrões, cuja projeção interna faz de bagatelas uma mágoa submarina. E no caminho, o devaneio.  

A bagatela é revolvida, retorcida, sua face é repisada com variações mínimas, em seu seio entrevisto imprecisamente, nascedouro falso de desassossego. Algo tão comum, a esquecer, é para mim assombro pulsante de ideia fixa que se insinua em voltas e traumas nos contornos de pesadelo.

E então é como se dentro de mim houvesse uma força criativa autônoma sádica a projetar malfadados de coisas pequenas em cores sempre novas, cores exuberantes ou pálidas, histórias a um só tempo há muito decoradas e sempre com novas palavras, e ao adentrar estuários intervalares do consolo tenho as raízes largadas a céu aberto de um sofrimento inútil, radicado que é, justamente, numa bagatela. Uma dor puída de nada que, de tanto revirar, compõe vazio inexpressivo da espinha do ser, compõe obra inacabada cujo meio não para de dar vida a sobressaltos supostos e ignorados. 

Não sei agir a partir e para esta vida corriqueira, e o que esta vida tem de inevitável — porque meus pés não prescindem do chão, nem meus olhos do que está logo à frente — tem de meu desprezo. A força criativa tem mãos para o devaneio, nas frinchas das bagatelas são tracejadas, com a facilidade de sonho, resoluções tão exitosas, renúncias tão assertivas e acabadas, a cobrir o banal baldado, cheio do torvelinho artificioso do sofrimento, da culpa e da vergonha, de nobreza pressuposta. O desprezo do que se estranha do alheamento é espaço a toda sorte de afetuosa vontade, da nulidade se evoca o amor de um sentimento cheio, se esvaindo afinal, corpo daquela mesma nulidade.