Acídia

08/03/2024

Me aplico, de maneira diligente e tenaz, ao trabalho, ou melhor, aos desdobramentos replicáveis e cotidianos de ocupação: levantar, pressionar o espinho da pontualidade, revisar à exaustão as tarefas, antes de sua efetiva submissão. Me inclino, com paciência de boi, a proceder e repisar o quanto for solicitado, maquinalmente que seja, me abrir ao compromisso de me portar útil. Não que me sinta, no contexto de trabalho, insubstituível ou transformador. Não aquilato ação, isto é, o que me é demandado pode ser um completo absurdo, assim como sua execução; é absurdo pedir para que se pule da janela, mas isto é feito de peito convicto. Minha impressão é que, ainda assim, sou muito falho e incompleto e que, no que entrego, sempre há rastro de imperfeição, sempre se esgueira sorrateiramente algum erro. E em todo encontro, em toda troca banal de palavras com algum colega, falta um dizer, falta um sentimento não posto à luz, resta algo sem encaixe.

Tenho meu limite. Tal dedicação não reside em algum tipo de lisonja, esperança, anseio ou ambição. E mesmo que busque, de certa forma, camuflar na pele da competência e da resolutividade, esta conduta não é nada senão miragem. Igualmente, não tomo o trabalho como um jardim a ser cultivado. No fundo, sei que não vale a pena. Meu limite estala na percepção, de premissa, alienada, inteiramente. A um só tempo, sem orgulho, parto da alienação e não acredito na liberdade: a rigor, não acredito que exista solução, nem vejo o porquê de todo esse movimento e inquietação diária. Talvez não exista obra da qual sentir vergonha, desdém e orgulho. Talvez restem apenas o cansaço e a antecipação um tanto que angustiante, no caminhar pelo cinza urbano e pelas portas e escadas do transporte público, do irromper inútil do desejo, a oprimir a consciência.

O dizer sim ou não à vida é implacável, arrasta de maneira inteira tudo que é da vida. Não só a razão, na frieza do pensamento, não só a emoção, só os desejos, só os aspectos da vida circense em sociedade. Sim, tudo isto, ou melhor: não a tudo isto! Se há um pedaço ausente, a vida como que se envenena. 

Mas, há quem diga sim, apesar de tudo, e cuja vocação e entrega me comovem, e sinto em mim o medrar de uma corrente generosa de admiração e querer bem. Talvez seja uma forma de manifestação de amor, com os incrementos outrora perdidos das dimensões amorosas outras. De todo modo, a afeição profícua vacila ante a aparição de certo rancor e ressentimento, e passa a existir uma distância incontornável entre nós. E assim, passo a odiar o que era então tão querido, a querer ruptura, até desejando ferir com meu desprezo. Dizem, tão cheios de razão, que ela, Rachel, encontra, no trabalho, uma fuga; dizem que o trabalho é para ela uma fonte, um meio para encontrar forças. Tolice. Caso se se sentir de fato necessidade de examinar, de dar um veredito a respeito de uma figura desta altura, se deve também não falar em termos tão displicentes. Me limito apenas ao seguinte: Rachel possui uma grandeza própria e anterior, e o trabalho não é uma faceta alheia e segmentada de sua vida: quem é grande não se divide, dizer sim é ser em tudo. No lugar da displicência, talvez em falso sinal de solenidade, busquei em sua grandeza o cultivo de uma vaga e majestosa inspiração; busquei em suas virtudes raras um abrigo, e talvez fosse de minha parte uma intromissão descabida me imiscuir em sua vida, para além da superficialidade cinza da rotina e ocupação. E assim, ao respirar tudo isto, padeço de uma grande tristeza: construí uma figura irreal e intangível — se nota em seu olhar uma placidez distante e profunda; se sente em sua expressão o faiscar de algo interdito em termos imediatos, e o que se tem, na superfície, é a manifestação de toda sua dedicação e do seu sim à vida, quase a beirar a loucura, a exasperação. E então a odeio, desejo transparecer meu despeito, e existem uma fissura, uma distância e, por conseguinte, uma necessidade de se estar longe, sem memórias. Disponho, neste ponto, de um artifício socialmente conveniente: os turbilhões internos trabalham subterraneamente, como sempre, e assim acredito não poder ofender alguém tão raro e especial, por sentir veladamente, e por mais que esteja aborrecido e angustiado, minha afeição por ela — a qual fiz questão de exprimir sempre que possível, apaixonadamente — se mantém protegida nas aparências sociais, mas, no fundo, acredito que não caminho desembaraçado, a hesitação erigida pelo sofrimento cria um ambiente sentimental pantanoso; se sinto repulsa à mera cogitação de transparecer o desprezo, também me finco ao desejo de distância e esquecimento. Mas, contemos a história do Gênesis.

No limiar da consciência, parecia já me sentir inclinado, incontornavelmente, para a solidão e ruminar do espírito. Por óbvio, não é um entendimento linear e sem estilhaços ásperos, tampouco se trata de recusa ou aceitação, e se hesita, nos descaminhos, idas e retornos da vontade, até que se percebe afinal o quanto o ser assim se direcionou, e, de maneira inflexível, foram desprezados os desejos de mudança volúveis e respectivos sofrimentos contíguos a estes mesmos desejos, quando frustrados.

Em minha primeira experiência de trabalho, experimentava a angústia e também o desejo de não ser corrompido pelos maus hábitos e vícios, tão abundantemente escancarados por todos os cantos, e a um só tempo, com sensibilidade aguçada, percebia a manifestação de tais hábitos nos outros, os reconhecia como ruins, antípodas ao que idealizava, e sentia a introjeção tímida disto em mim, como se rumasse também à decadência, como se derramasse o que poderia haver de fundamental em mim. Me concebia diferente, e isto me exigia transitar entre a nostalgia, a negação e a dúvida. 

Durante o período universitário, se armou um patético e tortuoso caminho para que conseguisse um mero estágio. Me restava me apartar no ofício acadêmico, em termos práticos. Nas entrevistas de processos seletivos, sentia sempre o peso de uma penumbra mentirosa, de uma atmosfera farsesca. E é uma mentira diferente da de hoje, aquela me era insuportável e totalmente dispensável. Lá, as palavras ficavam suspensas no ar, tinham o sentido trocado. Percebia alguns de meus colegas a arranjar a carreira de maneira astuta e desenrolada, a cavar deliberadamente frutos futuros. Uns marotos! Se entregavam ao construir deste edifício de maneira natural, a insinuar veladamente a posse do mapa do caminho. Para estes marotos havia o momento de especialização técnica, bem como o do êxtase do prazer, sem que este atrapalhasse a resolução daquele. 

Minha perspectiva era a de um vale nu e poeirento, letárgico, uniforme. Havia o momento de especialização, mas a formação genuína se deu no fermentar espiritual das noites cálidas e do final de semana, pela literatura.

Era muito competente nas matérias — me forjei um trabalhador operário acadêmico –, e a medida de minha entrega correspondia ao afiado desprezo por este ofício. Os textos apinhados de referências e notas de rodapé eram lidos de maneira diligente, enquanto não os respeitava. Hoje, me pergunto se no ambiente acadêmico moderno, caracterizado que é pelo proselitismo e especialização extrema equivalente a de grandes corporações capitalistas — me pergunto se neste ofício é o bastante apenas fazer, ou se deve também acreditar. E assim, ponho em dúvida minha competência enquanto operário da ciência. De todo modo, este quadro patético, durante os cinco anos, não era de todo ruim e desconfortável, podia até dissimular a pobreza de vida com o amor à arte, com errâncias incertas pela cidade.

Na metade final da graduação, me inseri na primeira repartição, como estagiário, em que já incorria na tenacidade da aplicação prestativa e inteiramente entregue, e depois de tanta dificuldade para conseguir algo, pouco que fosse, mero elogio a mim endereçado parecia uma dádiva imerecida, a transbordar uma pressão, de modo que, a partir dali, não pudesse errar jamais. Sentia que todas as trocas e conversas se encetavam de maneira artificial e travada, sempre havia um sabor patético — mesmo se fosse dia, a opacidade do céu sugeria noite. Havia um professor de história, dado à literatura. No almoço, acompanhava a chefe enquanto preparava o cachimbo, o semblante limpo, bem humorado e sóbrio a denotar vitalidade de ação. Certo dia, no elevador, a uma colega comentava ele que finalmente leu, nas férias, Educação Sentimental. Quase que instintivamente, lamentava que ele não soubesse que poderia ter em mim um companheiro de conversa sofisticada — a colega certamente não se importava com Flaubert –, nem que em minha bolsa carregava o primeiro volume de Fausto — provável que teria ele uma opinião engenhosa sobre a obra, inspiradora, a conter inclusive paralelo muito bem burilado ao governo contemporâneo no Brasil. Seja como for, não se saia daquele sabor geral patético, fortuito e impessoal. Ah, como essas distrações buscam alienar o alienado de sua escravidão! Ao diabo os gostos comuns!… a literatura é para mim sobretudo um destino solitário.

Claro, já então sentia como as coisas transcorrem estupida e indiferentemente. Estourou a pandemia, lá estava novamente o cenário desolador da falta de perspectiva. O que me salvou foi escrever. Sem traquejo para as encenações da prática e da arquitetura de belas trajetórias, na escrita posso.

No ambiente atual de trabalho, sinto que me querem bem, sinto certo carinho, os temas objetos do trabalho entusiasmam, tem até um caso de gostos comuns… Recebo tudo igualmente como se nada merecesse, e ao mesmo tempo me ofendem os estilhaços advindos do desarranjo primevo; acho tudo isto uma causa perdida, e não posso deixar a negação e a descrença. Ainda assim, reapareceu até o velho dizer segundo o que tenho um futuro brilhante e que posso mais. Aqui, emendo: sim, talvez, posso, até que poderia — mas, para quê?