Demoníaco ou angústia diante do bem

30/07/2023

I. Gosto de uma coluna de Manuel Bandeira na qual ele fala da origem de seus traços faciais, o nariz a remeter ao pai, a boca, à mãe. Por outro lado, já me é um pouco complicada aquela ligação familiar de Lavoura Arcaica, a tratar da história da família como que dividida em raízes de árvores diferentes, e então haveria o lado da mãe e o do pai, forças quase que espirituais e a contornar tendências e ações dos galhos nascidos, e então o desenrolar grotesco todo acaba caindo por sobre as costas da mãe, suposto ventre de inclinação malsã. Ninguém negaria a força do temperamento e humor herdada, mas aquilo me soa forma de se eximir da responsabilidade pelas rédeas da própria vida, porque a rigor a espada a pender sobre cada um não tem par.   

Meu pai, quando trabalhava de motorista de ônibus, ganhou a alcunha de “zangado”, personagem do desenho. Meu pai tem a alma simples, em que se incute estreito contentamento, e, incomodado este, esfumaça aborrecimento rombudo. Talvez tenha em tal aspereza a origem de meu ser introspectivo.

Nietzsche chegou a desprezar sua origem, tanto germânica quanto familiar, inventando ligação que teria com a Polônia… De minha parte, minha pátria é o país onde não estou. Não busco atavismo tal qual buscasse o que melhor fosse me apetecer segundo a perspectiva do que me tornei. 

II. Erguer-se pelos próprios cabelos. A um só tempo bater o escanteio e cabecear a bola. E me atino que não foi o bastante, olho ao redor, sinto o espaço, repiso o estar cotidiano — certamente me imiscuí, estou num lugar que me é distante; distante não em termos de progresso ou conquista, mas sim porque percebo incontornável desconchavo crônico, algo que jamais pode se encaixar completamente. Para que se erguer novamente? A inquietação e esperanças de todos os dias tiram todos os dias de seu lugar, o tato como que serpenteia aéreo, perdido, e a paleta, catálogo de ações, dos assuntos, febres e modas, dos hábitos e vícios, bem como sua negação, formam espessa água em que perpasso superficialmente, tépida apenas e não suficiente para abrigar. 

III. Pórtico majestoso para os heróis, canapé, céu e mar amplos: a grande aventura. Odisseia, não importa a variedade em meio aos estendais de traduções, transmitida às idades, transportando a glória passada. Tempo de ação. Até mesmo o cachorro de Ulisses é um artifício de eternidade.

III. Observo bem os vitrais de tal castelo erigido no ar. Sentir e buscar transportar a grandeza sem ser grande.

III. A grande aventura. Desencontros de uma coisa complicada, privação, ímpeto sanguíneo, contornos de silhuetas femininas, cintura, beleza formosa que promete felicidade, toda ternura do carinho, toda sorte de delícias, também delírio, exasperação, código íntimo e velado de palavras de namorados, gracejos, compreensão e antecipação do outro, receituário das boas práticas, ditos populares, caça, conquista e encontros fugazes e fulgurantes: o êxtase.

O tribalismo do sexo aludido por Rilke — sim, no mesmo terreno da apologia da solidão, longe dos ruídos e batidas de relógios da cidade, para espécie de apoteose, transcendência, revirar-se, emergir em meio ao pântano, saltar, e surge, pois, Deus –, e há as viagens reais para países vários, o trato agradável e amiúde rodeado por mulheres, uma vida concretamente prazerosa — cada lugar novo visitado certifica um grande poema, para cada amor um aprendizado. 

III. A palavra que vacila, sentida, os contornos de lábios que a pronunciam repassada de alma, com o peso de uma morte absurda, pórtico de sofrimento de dimensão incomensurável. E a isto jamais linhas e revelações de abóbada altaneira, cuja pintura retrata o engenho da criação divina, por sublime que seja esta, poderão conferir um mínimo de propósito. Com que propósito uma vida tão nova e inocente é ceifada? Não pode haver, mesmo se séculos fossem segundos. Em termos terrenos, certamente escreveram por aí manuais de boas práticas diante do luto. Como tratar em terapia etc. Ou mesmo visões filosóficas sobre a morte. Fórmulas vazias. A palavra se curvou, espreitou-se externamente um pesar que atravessa outros mundos, uma saudade sem redenção concebível. 

IV. Volve-se o bem espicaçado e humilhado, as mãos do assassínio operam o moinho satânico da oficina dos fatos e do cada um por si: a maldade humana e o maníaco destruir contornam a funesta dança.

A rigor, de cá para cá, paira o sentimento de que não vale a pena. Pois bem. O decaimento material, as incertezas e condições concretas ditarão a rotina, rotina esta tenaz e frágil, espetáculo patético de esperança e desânimo, de tentativa e cansaço, de vergonha, dúvida, de sofrimento e conforto, de teimosia e timidez e resistência e colapso.

Carrego a nostalgia e aspirações de uma grandeza perdida e amaldiçoada. Ah, sim, amar, beber e cantar: o esplendor de cenas sobrepostas e mensageiras da plenitude do ser. Amar, beber e cantar. O esplendor. Amar, beber e cantar. Altíssimo criador da vida…