16/09/2023
Cada um reluz naquilo em que se esforça,
ocupando-se com isso a maior parte do dia,
onde ele seja superior a si mesmo.
— Eurípides.
Rachel, peço licença para cometer este ato antiquado de lhe escrever. Afinal não há distância de estados e países entre nós, nem faltam meios virtuais de mensagens instantâneas. Para piorar, como pode ver, não é algo feito à mão, e sim forjado nesta folha impressa comum, corriqueira, de traços impessoais e frios.
Seja como for, devo dizer que tenho absoluta inabilidade em coisas práticas e concretas. Busco apenas proceder com seriedade e tentar sobreviver. As letras me são desde sempre fundamentais. Sei que escrever me salvou em termos de sobrevivência material, ao evitar o absoluto fracasso nas coisas da vida. Contudo, a rigor, não tenho tal propósito, de triunfo. Pois sinto que o ofício da expressão é o único que me cabe, em tudo.
Posso integrar ao sopro ondulante da vida uma seiva expressiva ao prover de ponta a ponta, do começo ao fim, os contornos, ao moldar as justezas e meandros das palavras, ao tecer com os dedos repassados de pó cada curva, entreato e suspiro. E assim, só pela escrita conseguiria exprimir algo digno do que você representa, Rachel.
Já me perguntei diversas vezes como você consegue ser tão boa, como consegue, mesmo nos cantos mais inóspitos e áridos, espalhar tanta inteligência refrescante, tal como se chamasse à luz o que há de melhor e mais inteligente em cada um; não é de forma alguma aquela sabedoria que para se destacar precisa subir por sobre os ombros da mediocridade; tampouco aquela sabedoria que confunde grandeza com soberba altivez. A sua sabedoria, Rachel, reside na generosidade e se distingue não em termos de política, diplomacia, hierarquia, posição ou cargo, mas em termos de virtude pura.
Você me instiga a voltar a acreditar na possibilidade do valor em si das coisas. E assim, certas coisas seriam intrinsecamente virtuosas. Confesso que, mesmo quando corriam dias sem que nós nos falássemos, ver através do vidro que você estava presente, em sua mesa, me fazia perceber o ambiente de maneira diferente, como se o salão com você tivesse mais ar, por conta desta sua virtude tão generosa.
Só se mantêm alheias à sua energia as pessoas há muito petrificadas pela indiferença. Convidando os demais a serem melhores, só assim talvez todos os outros possam de alguma forma ensaiar em si esta virtude que é própria a você.
E então, ao sentir isso, não me pergunto mais o porquê de você ser tão boa, passo apenas a reconhecer e admirar. E a sentir o quanto este tipo de virtude é o que, a rigor, vale a pena nesta vida.
Há a lenda de aprendizes que copiavam exasperadamente os escritos de seus mestres, de modo que, perto da grandeza destes, passassem a ser grandes também. Nossa época, principalmente no âmbito acadêmico, repudia a ideia de inspiração, cópia. De minha parte, não a nego, a cópia, por questionar o mérito, mas pelo fato de que meus gestos de copistas de nada adiantariam, não passariam de mecânica estéril: não há como ser que nem você, Rachel, só teria sido como tu se tivesse sido tu.
Pois bem. Me limito, também, a lhe agradecer, pela companhia, parceria, generosidade, acolhimento, paciência, escuta, sensibilidade.
Não pretendo algum tipo de marca própria, projeto, reputação, glória, palmares etc. A rigor, nada fiz na repartição sem a sua influência direta. Você foi fundamental neste período todo, e se não fosse você estaria ainda mais perdido. E isto me basta.
Sei que você de certa forma, ao estar na repartição, pelas circunstâncias todas, se encontrou em espécie de exílio. Me vem à memória uma frase que me disse certa vez, no carro, sobre tudo, neste mundo, “ser tão superficial”. Sim, esses desdobramentos têm uma cadência em geral mesquinha, grotesca, sem sentido, injusta.
Nessa linha, Bach escreveu:
“Quando as coisas estão bem, considere que elas podem ficar ruins; e se estão ruins, podem se transformar em boas. Não presuma que as coisas vão caminhar da forma que você quer. Aquele que se preocupa em fazer as coisas serem da maneira que quer só terá tristeza, desassossego e dor no coração”; “aprenda a conhecer o mundo. Você não vai transformá-lo, ele não vai evoluir de acordo com você. Acima de todas as coisas aprenda e saiba que o mundo é ingrato”; “o que é esse mundo senão um grande espinho que temos de remover nós mesmos? Esta terra é o reino do diabo”.