28/02/2026
Gesto de minhas mãos hesitantes, esboço tentativa de expressar, de modo franco embora incontornavelmente escrupuloso, meu convívio amoroso com mulher, melhor dizendo, sua não realização e absoluto insucesso, desde sempre. A princípio me inclino logo a partir para a evocação da imagem de uma beleza ausente que lancina. Mas, esta imagem abrange partes do sentimento. Penso então na consciência de que se trata de condição, a de ausência de amor de mulher, que revolve, embaraçada, plumas fantásticas por sobre coisas tão diretas, vontades práticas, em terreno de palavras taxativas a grassar por todos os cantos.
A mim mesmo tal expressão trava. Erguer algo ao menos um pouco coeso me parece viável apenas por meios indiretos. Talvez a apresentação direta do acúmulo de passagens cheias de timidez e hesitação compusesse somente um realismo aborrecedor e patético.
A timidez entrega, no campo da concretude, algo sempre a destoar de seu plano enraizado de sentimentos e intenções. Com esses sentimentos e intenções no peito não percebi, ao redor, sinal explícito de correspondência, nem mesmo de convite de descoberta. E assim, tal dimensão foi ainda mais retraída, em pressuposto, pela noção de que se tratava de algo inoportuno. Em mãos dispus de muitas tramas que, ao se criarem para o mundo, foram tão somente silêncio constrangido, hesitação, rota esquecida.
A rigor tanto a fantasia de apaixonado sonhador quanto o espetáculo prático me escapam, seus resquícios, brilhos de faróis em meio à névoa molhada da noite, tremulam uma inquietação que me turva os minutos. Daqui, a mirar a desenvoltura manifesta dos outros que, de antemão, dispõem da experiência e estão, por isso, com passo adiantado, lá fora. Se as histórias amorosas iniciadas mobilizam linguagem e percepções próprias, o tempo de apreender seu léxico foi perdido, e antes disso reside desencontro primordial, feito espelhos a um só tempo contíguos e separados por concreto.
Ainda assim, chegaram a me envaidecer algumas tessituras de tramas alcoviteiras montadas por colegas para mim, quando, como se fosse digno de um tal amor, de repente se descortinava o campo da possibilidade prodigiosa, com belezas e promessas, logo adiante a ruir, meros farelos. Para além do enlevo do orgulho momentâneo, ou mesmo dos ataques de autoestima, essas visões de felicidade prodigiosa se acanham, também, no campo da fantasia, tamanha sua não aderência ao que efetivamente conquistei na vida.
Endereçados para meu tipo, que tombem estigmas, ideias e categorias a enquadrar perfis, e é provável que não se enganem. Contudo, e por mais que acabem por agravar certo sentimento de vergonha e desdita, ainda são estritamente ponta de repercussão forânea, condensados em flâmulas chorosas, soltas na névoa noturna... remexem uma ferida, por si mesma, já irrequietamente insone.
Não há história, o sofrimento uno está na base, mote do desassossego, e dá forma a palavras errantes, estriadas, perdidas e alongadas em labirintos despropositados. Com a miragem caprichosa de encontros imaginados, da aridez se levanta poeira, são emulados movimentos concertantes e aquáticos de um faceiro azul, e paira no ar o esplendor de plumas mitológicas, depois decai e se assenta; ressecamento e cicatrizes. Quanto a isto tudo, se inquirido fosse não teria o que dizer. Não há história, estanco, as palavras giram.