31/03/2025
A madrugada se alarga no tempo, estancada. Neste quarto, de novo. De novo sombras, luzes douradas na rua vazia. O sono esparramado recepciona estremecimentos de doença estacional no corpo dorido.
Chega ao termo da vez a vigília. Faíscam na mente reminiscências não de momentos cristalizados na vida mas de recortes de sentir em si, erguidos no ar, avulsos, perdidos.
E então o dia plantado se efervesce, ofuscante em sua opulência de brilho. Rasgo a luz, caminho pela cidade rumo ao trabalho, vejo edifícios, escadas, ruas e esquinas. A construção de grandes engenharias e a força das mãos de trabalhadores fazem mover, o céu ao fundo, guindastes suntuosos, pó e ruídos.
Pressinto a vinda da convalescença. A palma de minhas mãos se afunda na terra, no arco de seu movimento, pressinto, poderia ser criado engenho de uma obra, obra inútil de um circunlóquio copioso e que ecoa o que deixou de ser, em alheamento e renúncia. Em qualquer aplicação o tempo é o mesmo.
Penso em convalescer. Sorrateiramente as inquietações de todos os dias se armam no respirar que, pouco a pouco, volve desembaraçado dentro do peito. Que se desencadeiem as contradanças da negação, que se encorpe a sombra dos rastros da angústia já familiar, hoje revisito aquele silêncio remoto, hoje tenho olhos apenas para a palidez dessas flores sem afirmação, em meio às quais não há palavra a ser dita.