07/02/2025
Atravessávamos os meses da fase outonal da graduação, quando se soube do suicídio de um colega de turma. Então andava sumido, aparecia pouco no campus, mas quando vinha procedia quase sempre da mesma maneira, chegava atrasado e, pouco depois, com o texto em mãos, participava ativamente da aula, e suas perguntas não se demoravam por sobre algo específico ou detalhe, parecia movido por inquietações e reflexões ambiciosas. Certa vez, quando fiz parte de um grupo de atividade junto com ele, via como digitava no teclado do computador, ignorando por completo a sinalização da correção ortográfica automática, acentuava manual e instantaneamente as palavras. No mesmo semestre, durante um intervalo, notou que eu estava sozinho num banco, me chamou para a roda. Diante da notícia do suicídio, parte dos colegas acompanhou os ritos, o curso organizou, para uma semana, roda entre alunos e professores e uma apresentação ministrada por alguém sobre saúde mental, além de manifestações memorialistas no saguão da biblioteca. Ele escrevia, leram um trecho. Vieram ver as manifestações seus pais, tão miudinhos, introspectivos. Na roda entre alunos e professores, depois das falas, e o encerramento da reunião a se esgueirar na sala, o professor Agnaldo disse que, na semana imediata, as coisas voltariam a integrar a cadência do moinho satânico.