13/04/2025
Ensimesmado quase sempre, cismado outra vez. Antevejo gárgula que afinal por aqui não existe e, assim, nada de real projeta no ar. Antevejo o peso de sinos na atmosfera da cidade babilônica. A urgência de trombetas.
Já o céu verdadeiramente sorriu, as nuvens de tecido perfiladas em linha, não havia rasgo, fissura, pois entre os espaços de descontinuidade do tear havia o azul suave do céu. Convite, afirmação da vida.
Penso em ler Dom Quixote, e esta mera ideia já é uma recordação de que a literatura me é fundamental. Insofismavelmente, bem de uma vida, pois a tenaz negação não pode se criar.
Porém… aqueles escritores de virada de século, cismados na ideia fixa de miasmas, vermes, putrefação, aquelas almas sensíveis tremeluzidas pela miragem maldita de orgias, pela vertigem da imensidão dos mares, firmamentos e astros, aqueles corpos assaltados pela tuberculose, aqueles nomes de assinatura de bilhetes suicidas nos jornais.
Ah!, o bem fundamental não basta, valioso por não ter serventia na encenação prática. E assim, as passagens divinas se abrigam num baú largado ao canto, e tudo o mais pulsa enquanto desengano nauseado (o Mercador de Veneza bem que poderia ser uma tragédia. Antes do gesto de grande amizade, antes da filigrana do ódio, antes do caso de perfeito amor encenado — homicidas sequer padecem de estremecimentos tamanhos).
A terra respira inconteste, firmam tempo e espaço, com as batidas dos mares, as estrelas estonteantes, ecoa nos tetos dos salões música de outro mundo, Mozart! Aquele engenho humano raro.
Porém… porém, sob a miragem de silenciosa reunião da divindade, a trazer o veredito, a mera afirmação terrena nem precisa esboçar a defesa da vida. Enquanto a culpa estéril se aprisiona na mudez, concentra sofrimento de uma dor de nada que punge o redor alcançável. E então, o rosto, também verdadeiramente, finca careta no espaço movediço.