13/01/2025
Escapa no céu facetado por matizes noturnos pálidos, foge filamento fantasma de ventos que são mau fruto de visão agourenta. E tudo parece correr a partir dali, se sente o espaço carregado, pulsa inclinada a flor do desespero, se pressupõe trama que compõe um estar trágico, os sentimentos altaneiros, com o amplo espaço do mundo aberto engolido pelo cair da noite, pelo subir dos rios densos, pelo avanço das sombras inquietas. Por certo, não é no desfecho que nasce a tragédia. Antes, antes de quaisquer considerações acerca da tragédia, o espaço da vida concreta é mero encadeamento comum e cinza. Ainda antes: o faiscar de visões engenhosas do que é prodigioso, os pés firmes no chão, até que do suplício pressuposto a mentira fizera dor concreta que estremece verdadeiramente a espinha.
Corre, escapa, desemboca ante o campo, sobre o qual deita o luzir do dia, ao canto o caramanchão vazio, o carrossel desativado. Perdulário de bens ignorados, é certo que nas danças da vida não me encaixei, fracassadas as tentativas, mas não houvera nestas ânimo genuíno, de ponta a ponta, e regresso agora sem poder dispor de reminiscências de pequenas conquistas e regozijos, enquanto que mesmo do limiar da partida já não conseguia sequer respirar desembaraçado, os olhos duros e esbugalhados. O dia se estanca amarelo, eu marasmo, as coisas ao redor se criam, vêm a noite, o sopro do vento, as nuvens fantasmas.