26/02/2025
O olhar atravessa as paredes deste quarto cerrado, intuo o que está além perdidamente. Dentro, tudo assentei. Se me esboçou ímpeto violento de revolta, discurso de desespero a clamar por abrigo, por sinal, de desagravo que seja. Não houve. E tudo se queda assentado.
Entre as paredes que se fecham não há virtude, prenda de vocação, tampouco aquele entusiasmo que faz o gesto da mão capturar jardins e montanhas fora. Dentro, cada coisa em seu canto se inquieta e estremece, cada coisa em seu canto assentada. Para ser diferente precisava ter nascido outro.
Sombra do que pode ser prodigioso, se encorpa em demasiado peso a visão do terror, igualmente possível. Porque, se iguais, triunfa o maligno.
De todo modo, o discurso se faz vazio — ah, revolta emudecida, que importa afinal? —, o que está além das paredes compõe fantasmagoria de sonho sem linhas fronteiriças, luzir de estrelas, balançar de cortinas e nuvens, ramagem refrescante, criaturas mitológicas, feras e bestas, corrida de bruxas, demônios terríveis.
Tudo assentado, pulsa, se dissipa o lamento, é vida no contínuo fenecer abandonado em si.