Fecho

23/01/2025

Por um longo tempo, acerca de tudo que era coisa da vida e mundo, pude exprimir ditos e falas que pendiam agudamente para a negação, ao modo de dúvida provocadora, ao modo de crítica implacável das pessoas e sobretudo dos modos de vida vigentes, e cujo escárnio, ao encenar certo pessimismo, na verdade fora sempre representação externa de uma defesa partida dentro, fora sempre tão somente antecipação e afã. 

Agora a afirmação em si ou afirmação que nega me é de todo modo tola, inútil. A escala de preferências, as encostas e escarpados do entusiasmo e da desilusão se me transformaram num quadro abstrato, numa fumaça de aspecto turvo e desagradável que se esvai, desmancha no ar, dando lugar a sopro renovado igualmente de aparência incômoda. 

Diante de tal carrossel soturno faço certo gesto dorido de renúncia, padecendo do transtorno vindo da falta de adaptação às coisas da vida e mundo, enquanto que o movimento arcaico a estremecer coluna reside noutro torvelinho opaco, origina a sensação, presa na garganta, de que a existência me é um mal-entendido, um presente não solicitado remetido do avesso. 

Poderia olhar o que comove, sentir, subtraí-lo da sordidez generalizada, lá me refugiar, mas a mera centelha daquela sensação abre os traços de um largo campo, onde o tempo passado pesa por ter tardado, onde sempre será inútil mover lábios e pensamentos. Caem penas da mão em cuja palma convergem os dedos que se encerram, aniquiladores.