04/01/2025
Rompe o dia, luz branca se derrama sobre os pisos, sobre as paredes, sobre pias, se abandona no chão livro amassado, as palavras puídas. Por um instante fulgura na mente a visão de viagens impossíveis, de aventuras não realizadas, ao lado os sabores do que é local, o esplendor das paisagens; são todos instantes a melodia de canções de ninar entoadas a um sonâmbulo, as cartas não respondidas, as conversas que não se encetaram jamais. Enquanto nuvens se avolumam, se juntam, e pode ser que estourem apoteoses na atmosfera, estourem também carrosséis ruidosos de ritmos e dança em solo.
Acordo. Há o peso de horas condensadas em quarto de hora, olho as paredes, a mobília, imagino a maquinação do dia. Mas sobretudo desperto do nada do sono, jogado à boca da vida.
A apoteose da arte, o virtuose indefectível e severo que, com rigor técnico, desperta Gaspard de la nuit, desperta a Hammerklavier, com rigor técnico e espiritual, e tantos outros rasgos da expressão…
Sim, rompe, pode ser, mesmo, do que me cabe, que estoure a litania da arte, já em sua iminência tudo sentido pobre e nu porque se abraça mas não se provê o impossível que inclina a subir.
Pois bem. Sinto que caminhei dentro do nada. Seria inaceitável outro ser eu, quem caminhasse justamente pela minha vida, tamanha a paralisia e perdição, ao mesmo tempo se dissipam no ar a inquietação e as esperanças dos anos findos, o que passei se me afirma hoje como nada sendo ao pé da maquinação da vida a vir, espetáculo patético repetido, que transita entre escarpados e quedas.
Me ergo do leito afinal. Ah, os pisos brancos, a natureza e seu esplendor, o ar suave que enche o peito de frescura, as árvores que despejam folhas sobre o asfalto escuro! Me pesa, é verdade, esta minha indiferença ante o alvorecer. De maneira brusca, sem pensar, sem pretender evocar o estado de contemplação da vida, busco somente, só, tardar.