Vale

07/12/2024

Arrumar as gavetas, trocar de posição o sofá, reordenar a mesa. O piso a luzir. Os panos sobrepostos, o pó na flanela. E os tapetes, as cortinas, as toalhas e lençóis meticulosamente asseados. E assim, sentir, ver o lugar outro, mas sobretudo, pelo ímpeto da fuga, ver outro lugar qualquer, fincar os pés em chão impossível.  

O itinerário não tinha propósito, ponta, funcionalidade, mero apito de metal oco e mudo a cheirar gás. A vigília irreal transcorre com o torpor do sono, o céu pálido dum marrom agourento recorta a borda da rua larga. 

O meio entre chegada e partida se susta tenaz e enganosamente paragem, porque, enquanto se ergue, cêntrico, rochedo perene, pelo canto — quanto nos foge! — se esvai na morte estigial de tudo, de tudo a correr, escapar… 

Pela intuição do que se vê especial e singular, se deseja e sente a amplitude da vida, a grande aventura. Porventura se sorva a grandeza que é viver, quando a força primordial de tudo não oprimisse, mas alçasse o corpo, e os pés pisassem terrenos impossíveis. E assim, se prossiga o caminhar. No vale escorrem lágrimas e sangue, sob a indiferença e abandono daquela mesma força primordial. Travado o passo no lodo, animal ferido se inclina a usurpar a chegada, premer o meio, estiolar o tempo, espicaçar a sua vida à revolta, a sordidez encenada no jogo humano sobre o vale ser a lágrima de tudo. 

Acorda o dia. Se desdobra, dissimulação de palco, artimanha de carnaval, entusiasmo de conquista e diplomacia, tecelagem da escala de despeito e preferência, atração e ojeriza, se desdobra nos quintais e escadas, nos flancos das grandes solenidades ou dos mesquinhos conchavos, nas reuniões espirituosas e etílicas, se desdobra a manifesta e afirmativa vontade.

Agora a vida se arma em itinerários de logística funcional, de ponta a ponta, no trem se atravessa cidades, se esfumaçam sinuosos campos prenhes de movimento e de repouso.  

Que seja: em lugar qualquer, cerro os olhos, deito por sobre o tapete, afundo no tecido que, afinal, é chão. Em meio a estremecimentos intervalares, a angústia estoura, vulcânica, nas dobras do céu perdido.

Obra inacabada que pasma, treme a espinha, pelo que é aflição do suplício possível, portanto dor pressuposta incomensurável.

Jazer no leito me é penoso e perdura demasiadamente. Caminho pela calçada da grande avenida. O trem corta o ar. As árvores se curvam sob o vento malsão, suas sombras erradias antecipam o cair da noite.