20/05/2025
O sentimento à beira de paragem inútil de beleza na ressonância de um instrumento condenado ao desuso. Ou por dentro da tessitura de livros perfeitos embora inacabados. A vocação extenuada e extenuante, a entrega absoluta de uma vida, o sacrifício.
Não, nada disso. Nem de longe a contrição de cavatina, tampouco o mistério de monumento ignorado.
Ao arrematar os últimos ajustes da escrita, ao sair de um mero texto meu, me parece que acabei por me desviar. Para além de palavras que ecoam obscuramente à guisa de gracejo no vazio, o pretendido cerne não foi alcançado, sequer assunto, e mesmo nessas bordas resta imprecisão.
Ao lado a sala de mobília estanque se abre para janela que recorta a noite de telhados empoeirados, a lua de cobre, a cerração varrida devagar pelo vento. A armação do dia repousa.
Os ritos do trabalho e o tédio encorpam, por caminhos de aspecto diferente, a mesma ausência jazida, e privações familiares e já condenadas a caducar carregam um pasmar renovado.
Os dias se acotovelam entre si, desfolhadas pálidas as reminiscências do movimentar vão, e, em perspectiva, se assomam à porta feito a descoberta de um crime hediondo. O desencadeamento banal de todos os dias, se imaginado para amanhã, se arma insuportável.
Penso em perfis. Não personagens, tipos sociais. Em ideia fixa de gente vaidosa e prática, de gente a girar noutra rotação de vida, com a afirmação do jogo.
E inutilmente, nos largos e vagões, em meio a itinerários, outros empregados carregam o enxofre de mal-estar e descontentamento clarividente do que seria a justa distribuição das glórias, prazeres e matéria; ou repisam as tramas e história de um conflito.
Segue afinal a estourar toda sorte da banalidade na cidade. As anedotas, os amores, as dores; até mesmo, de outra ponta, assassínios e manias mórbidas etc. Os copiosos desfechos e recomeços… e então? a rigor, sim, a paragem inútil. Estanco. Nos meandros da mágoa sublinhada, resquícios da absurda crença do impossível.