17/01/2026
Por acaso nos encontramos. Me abordou quando eu estava prestes a apertar o botão do elevador, instantes depois de ter seguido meus passos ao avistar minha figura na rua. Da conversa rápida ficou a ideia de um almoço, o que então não me pareceu algo tão concreto, tampouco, palavra ao vento. De todo modo o almoço aconteceu duas semanas adiante. Durante grande parte do almoço falou a respeito do trajeto de sua carreira até ali. Falei vagamente de meu. Me ofereceu um cargo, um bom cargo, com perspectiva para o futuro, uma boa perspectiva, de direção e tudo. Nos momentos finais até falamos um pouco sobre futebol. De certa forma há nisso tudo uma história de amizade, hibernada que seja, mas no desemboco da despedida me senti incontornavelmente tímido, as palavras longe.
Me sinto aferrado a ideias de lealdade e de dever. Alheias à noção da vida como teatro, de entrega do melhor no viver. São somente sentir por mim fincado, cujo contrário, sua negação, se irradia rubro feito a superfície de um corpo febril. Não param de pé por si mesmo, são perturbadas pelos francos, as remexo também, consciente, e então pendem e hesitam, sumo de desolada visão de ideal destituído de corpo. E assim, minha condição irrequieta se esparrama em um cansaço generalizado, que, porém, foi movimento, rodou, girou, a sua faísca a morada, não firme no tempo, de lampejos de sonho de vida. E na tortuosa e estreita margem da falsa convalescença pude enfim encher o peito de ar pleno.