Notas acadêmicas

 24/08/2020

Já em meu período outonal na universidade, algumas dezenas de alunos e alguns poucos professores se apinharam no saguão do edifício da faculdade. Discutir-se-ia uma ameaça externa à universidade pública, o Future-se. E então um professor, exaltado, bradava, e seu desapontamento com minha geração era nítido. A sua geração, que lutara contra a ditadura e profissionalizara os departamentos acadêmicos, não entendia nossa indiferença de ação em meio à destruição das conquistas do passado.

Bem. É compreensível. Realmente minha geração alimenta a conformação no moinho irrefletido da cultura. Claro, alguém poderia ter dito ao professor que a universidade atual é obra de gerações anteriores e que sua fraqueza diante de instabilidades políticas faz parte do legado; contudo, aparentemente a reação geral foi de indiferença: talvez a comprovação patética da tese do professor; e pouco tempo depois o próprio professor justificou o tom furibundo anterior, atenuando-o.

Seja como for, a querela entre gerações para mapear o fracasso não me interessa nem um pouco. Outra questão agora me preocupa: o exercício da intelectualidade.

Na universidade pública, desconchavo no financiamento, descaso, redução ou insuficiência de bolsas; no lado privado, professores demitidos em massa por meio de mero comunicado de e-mail, turmas remotas com centenas e centenas de alunos, muitos dos quais a perder o orientador em uma dessas recorrentes demissões — sem dúvida, há todo um quadro de problemas graves, e gerações como a minha, que estrearam o nome da família na lista de aprovados, obviamente sofrem e sofrerão com os efeitos de tal tormenta.

Porém, bem financiada ou não, provedora de oportunidades suficientes ou não, qualquer que seja a condição dos fatores que ora enfraquecem ou ora fortalecem a universidade enquanto instituição (e as pessoas enquanto carreiras), o corpo acadêmico parece sempre satisfeito, orgulhoso e altivo com a forma pela qual forja o conhecimento.

Isto é, instaurada a utopia externa, instantaneamente teríamos uma utopia universitária.

Utopia esta que é por acaso algo além de intransigência e impaciência com o que foge ao controle e ao planejamento procedimentais? É algo além ou algo menos do que desconfiança ou desconsideração em relação ao que não foi estabelecido por especializações atomizadas num laço infindo e inextricável?

O majestoso método age como incontornável mapa de todos os caminhos e sondagens da mente na árvore do conhecimento do bem e do mal. Para lograr, dar certo, é fundamental seguir fórmulas metodológicas. Para um objeto, o mais adequado método é escolhido e determinará a estruturação da escrita.

Um estudante atual de mestrado. Em seu radar, assuntos relacionados à sociedade e à política. Explora artigos em revistas acadêmicas eletrônicas, isto é, trata-se de um leitor de ciência — na verdade, leitor para um fim, o de futuramente ser um dos autores destas mesmas revistas que ora lê. Por um momento, um lapso, ele esquece de seu propósito acadêmico, de sua ambição, dos prazos e entregas, e durante todo um momento de loucura pensa os textos que lê em sua essência, em seu valor em si enquanto texto e não como um meio para incrementar o próprio trabalho, produção ou carreira; sopesa então coisas sem grande utilidade, como a estilística do que lê; nota imediatamente que, do começo ao fim, os parágrafos estão demasiadamente salpicados de referências e notas, que, além disso, para cada avanço de uma ideia, surge um tom de justificativa e que tudo é previsível, controlado e exprimido de acordo com um encadeamento padrão: sentidas estas características sem utilidade, os textos são percebidos como idênticos. De repente, o momento de loucura é chegado ao fim. E já era tempo! Os prazos se apertam, o congresso, a nota e o colóquio não podem esperar. Que fiquem de lado as ruminações.

Com efeito, não surpreendem a homogeneização, a falta de humor e a impessoalidade imperantes nos textos da academia. Quando se faz um trabalho em grupo, por exemplo, os próprios alunos pensam na necessidade de nivelamento entre as partes; embora cinco pessoas escrevam um trabalho, é quase um senso comum esclarecido que este mesmo trabalho deva parecer ter sido escrito por uma. Em troca de um padrão de excelência, de um tipo a ser alcançado, inúmeras mãos anulam toda a diversidade de seu escopo ao tingir o papel de forma a repisar mecanicamente encadeamentos lógicos de metodologias régias.

Diriam que isto é natural, afinal é ciência, não se trata de literatura, que, esta sim, preza por singularidade do gênio; contudo, o ensaio, forma não literária, também é preterido pela academia: autores como Caio Prado Jr. ou Sérgio Buarque são tratados como parte de uma fase amadora da historiografia; a prosa ensaística de Gilberto Freyre é tida como devaneio literário a pôr brechas ao seu rigor científico. Em alguns casos é possível notar, nos textos acadêmicos, palavras belas, ou mesmo uma citação dum grande pensador como epígrafe; mas, mesmo se um Olavo Bilac, conhecido por seu preciosismo afetado (para alguns) ou refinado zelo (para outros) na escolha das palavras, escrevesse um artigo de hoje, ainda assim sua paleta léxica não traria grande impacto na essência da coisa, porque a descolorização estilística é a face aparente da anulação do viço do engenho humano.

Em outras palavras, a escrita plúmbea é a manifestação superficial do estado profundo de devastação do gume intelectual de seu autores, assim domados no processo de extrema qualificação.

Um estudante de mestrado. Melhor, agora ele subiu um degrau: estudante de doutorado. E em ciência política! Os dias são de grande labuta: de manhã aprende a manejar dados brutos, sistemas, gráficos, números de eleições, portarias, leis; depois entra em contato com os últimos e novos apontamentos do novíssimo neoinstitucionalismo histórico americano, que é fascinante: as teses de seus autores são verdadeiros enigmas poéticos; há ainda outros mergulhos teóricos, os textos, em língua inglesa, cujas quarenta páginas tratam de grandes eventos de países de língua portuguesa ou espanhola — em muitos casos os autores de tais textos não estariam em exílio se escrevessem em língua portuguesa ou espanhola. Mas voltemos ao nosso esclarecido iminente: lida com os prazos, as entregas, as organizações de congressos, colóquios, a pontuação no currículo; durante bom tempo se organiza para um evento, e então a brutal atenção dispensada ao seu trabalho e apresentação faz com que não sobre energia para verdadeiramente assistir às demais apresentações — na verdade, cada qual assim o faz, os pensamentos flutuam, os dedos deslizam esguiamente sobre a tela do celular, cuja luz ilumina os semblantes impessoais e intelectualmente desconhecidos entre si.

Deste redemoinho naturalmente sairá um pensador qualificado. Aos poucos, seu temperamento se banhará na resiliência, na privação, na espera e na ambição, afinal sobe um monte hostil e escarpado; e ao entardecer de dias penosos não lhe restará energia intelectual. Finda a extrema qualificação, agirá mecanicamente ante tudo. Contíguo aos desejos e manias pessoais, seu campo de atuação, seja política, humana no trato com os demais ou filosófica, será engendrado por um temperamento impessoal, de métricas e indicadores, e o que estiver fora do meritoso processo de qualificação não faz sentido e não é digno de consideração. Sua cabeça não foi feita por nenhum autor, é tão somente um fruto institucional. Qualificado, resta-lhe o capricho. 

No Fausto há uma interessante passagem: Mefistófeles, ao encontrar-se com um estudante, satiriza o espírito acadêmico erudito, contrapõe o aspecto artesanal do conhecimento (que inclui intuição) ao enrijecimento da produção de conhecimento que doma a imaginação. Aliás, há todo um quadro romântico passível a conexões com esses pontos: H. Heine e Nietzsche têm clássicas e divertidas críticas ao espírito erudito. É bem possível, porém, que nenhum apontamento deste texto seja mero espasmo romântico, pois parece razoável que importe a todos interessados na intelectualidade o fato de a vida acadêmica atual ser tão previsível, repetitiva, nivelada e com seus horizontes de exploração intelectual cada vez mais fechados, atomizados, limitados por especializações dominadas por pragmatismo. A rigor, é como se cada pensador gerasse um pequeno tópico de uma infinda enciclopédia, e não há nada de absurdo nisso, afinal é tolice esperar que cada um revolucione o mundo das ideias por meio de pensamentos abrangentes. Porém, com o escopo de exploração intelectual forçosamente fechado por especializações celulares, o ofício intelectual se uniformiza dentro de cada uma dessas especializações, e o engenho humano se amesquinha, aliena-se, fixa o olhar em arestas minúsculas de uma estrela quando poderia mirar todo o céu. 

Seja como for, o acinzentar do espírito humano advindo da qualificação acadêmica tem por principal efeito uma postura intelectual que crê devota e incondicionalmente no progresso na história das ideias. Tal crendice do progresso tem cerne no valor do produto do conhecimento moldado por seu respectivo tipo de inserção num campo acadêmico: os esboços, os projetos, os textos, os liames e as referências aos textos respeitados no campo – tais elementos, quando uma carreira é bem sucedida, passaram pelo crivo dos pares, provedores do selo da excelência. Como são sempre necessárias a referência e o progresso, no começo de tudo os primeiros textos tratam dos clássicos, são polidamente humildes, miseráveis e reverentes; depois, os segundos trazem uma confrontação específica – até se chegar ao ponto de que, gradativa e globalmente, haja a impressão e defesa de que os novos textos avançaram e preencheram o amadorismo dos anteriores — e então são de uma altivez cabal, a manejar autores clássicos, se se dispõem a fazer este favor, e caprichosamente e com desdém como se estes autores clássicos fizessem parte de um estágio incipiente no quadro de progresso do conhecimento. Sua referência é tal gradação.

É normal muitos doutores se orgulharem de uma prática astuta: diante de qualquer texto, antes de mais nada veem os autores arrolados nas referências bibliografias, criando já a partir daí um inicial e importante parecer sobre o que será lido — ou sobre o que, por isso mesmo, não será lido: de fato, trata-se de um executivo altamente qualificado que, dentro das regras do jogo, segue as diretrizes que incrementam valor e utilidade em tudo o que faz ou é feito e precisa de seu julgamento; recorre também a atalhos, emendas, fórmulas consagradas por um segmento que melhor possibilitem a uma ideia derrubar outra, a um campo contestar outro; há ainda os que estão nos degraus inferiores da hierarquia: não possuem experiência, mas têm ambição, e penosamente subirão na engrenagem; inicialmente, lerão pedra, falharão, afinal ainda não podem entender tudo; sua relação intelectual sempre se baseará na assimetria do rito da qualificação – de um lado, autores e professores estabelecidos que já sabem manejar as fórmulas e caminhos, e do outro lado, os que querem chegar lá.

Há um abismo entre eles. E neste caos de pó e estridência é tão penosa e árdua a tarefa de erigir uma pequena construção que não se tem energia para, leve e desinteressadamente, olhar e sentir o que está ao redor, num horizonte razoavelmente amplo — toda energia intelectual será dispensada para suprimir o abismo do progresso da qualificação, e assim o academicismo, instrumento a extenuar o espírito, substitui todas as manifestações intelectuais.