03/04/2022
XV. Rilke escreveu que cada verso abriga as andanças do poeta por inúmeras cidades. A multiplicidade da vida nesta expansão espacial e espiritual é sorvida e sintetizada. Na verdade, antes mesmo do contexto de acentuação urbana vivido por Rilke, a figura do viajante se cola à noção de formação, de real alargamento de horizonte do pensamento, desprendido dos estreitos quartos de estudo e salas eruditas. Graciliano Ramos ficou tiririca ao ler o livro de Lins do Rego que evocava seu cárcere. Para ele, o escritor deve escrever coisas tangíveis à experiência. Tal apelo de Rilke e Graciliano à experiência não se imiscui nas respectivas obras de modo a criar um regulamento limitado do proceder literário. Isto é, apenas advém do temperamento e estilo peculiar de ambos. Se se fincasse na experiência externa o limite da expansão expressiva, negligenciar-se-ia a certa medida da força do pensamento esculpido, força esta que pode grassar também no subterrâneo, na letargia, na miragem, na ausência de dotes, sem quaisquer premissas extraordinárias, exigências ou requisitos fora das ferramentas literárias.
XVI. Abujamra costumava inverter a lógica do poema de Fernando Pessoa sobre suicídio. E o verso “talvez seja pior para outros existires que matares-te…”, no lugar de carga negativa, passava a ser uma ideia fixa de resistência ao ter seu sentido trocado. E assim, matar-se talvez melhore a vida dos carrascos, o que não pode acontecer. Com tenacidade, teimosia, resiste-se. Tal resistência abarca um sentido não só existencial, como também político, até mesmo cultural, de turrona e obstinada força contra a divindade da técnica, que fadiga os olhos, conduz a atenção e domina a alma. Quanto a mim, se me matasse, não poderia mais ouvir Brahms. Além disso, creio que ainda se pode resistir à estupidez dos fatos, aos humores e caprichos dos poderosos, às correntes do mercado de trabalho, à liberdade dissimulada e falsa, ao escândalo da desigualdade, à vaidade da distinção social — a vida, afinal, é algo maior que as aflições do mundo.
XVII. Hora indecisa, luz opaca e fria, as cortinas se estufam de ventos murmurantes, as janelas se largam abertas, não se sabe se, na calçada abaixo, agoniza pela última vez o suicida, evoca-se um longínquo espaço, amplo, majestoso, tomado pela atmosfera opressa e carregada, com redemoinhos malsões, vultos, no bosque, de feras e bestas, uivos agourentos, e serpentes expandem as grossas raízes de árvores anciãs, bruxas sob mania galgam o céu rubro e inquieto, águas negras esmagam o solo, esfriado o dorso das montanhas, umedecidos os pântanos, a vida é impelida a esconder-se dentro de uma construção.
XVIII. Porta-malas aberto, os últimos preparativos, partir-se-á, antes de mais nada, da rua, na qual se gastam o dia luminoso, a calçada e alguns meninos pachorrentos. De repente, passa alguém, nota o porta-malas, a movimentação que antecede a iminente partida:
— vai para onde?
— à Jamaica! Responde o viajante com escárnio.
O outro continua, indiferente, seu caminho, até que encontra o irmão do viajante:
— vai para a Jamaica também?
XIX. Apareceu o sujeitinho — “Eis um tolo”, prontamente considerei. Na verdade, não era eu muito diferente, tampouco minha sina dispunha de maior graça, pelo contrário: com o tempo, para além do núcleo da tolice, a patética e inofensiva desgraça desabava sobre mim, distanciando-nos. De meu lado, conformava-me em postura supostamente altiva, pois detinha a prerrogativa do escárnio, a agressividade da colocação de palavras envenenadas, e profanei a ternura de sua casa, o afeto apaixonado de mãe e filho. Um tolo. Sob a armadura da altivez a ruir, as fissuras e o sangue coagulado pelo pó não trouxeram alarme, afinal, para uma superfície, há dor também de superfície. Sua queda é sua queda, nada mais. Preteri, depois, o apoio correto, a retidão na postura, a acidez léxica: que se manifestem, com o brilho efêmero de um raio, o grotesco, os maus pensamentos, a deformidade e o riso patético, dissipados imediatamente nos limites das paredes de gruta, reduzidos à indiferença diante dos rodeios da vida.
XX. Rapidamente corria, pela manhã, a terrível notícia do assassinato da vereadora e seu motorista. Iríamos, depois da aula, até o vão do MASP, para manifestação. Lá estava apinhado de gente, por toda a avenida Paulista se estendia a aglomeração. Jovens especulavam sobre seus flertes e esboços de casos amorosos, sobre as inclinações comportamentais empurradas pelos signos, havia gritos de ordem contra a polícia, equipamentos de som, discursos, bandeiras e faixas eloquentes, adesivos nas bolsas e camisetas, dizeres em tinta nos braços e ombros nus, e algumas mulheres seguravam nos braços ou pela coleira um cachorro de raça qualquer, às mesas fincadas nas calçadas alguns dividiam petiscos, enquanto outros, em pé, empunhavam um copo de plástico com cerveja ou cigarro, alguns poucos carros não podiam prosseguir e nem retornar, certo motorista desligou o motor e se sentou no teto. Sobre cada sujeito pesava a exigência tácita de certa vocação para, dentro do instante de um pulsar, mostrar-se por inteiro, tornando a existência plena e intimamente ligada a uma vontade, a um protesto, grito, a flor não teria um porquê se vicejasse no interior de uma gruta, ensimesmada, longe do que é manifesto. Por um segundo sequer pensei, quando decidi ir até a manifestação, em aplacar meu sentimento de exilado. Seja como for, aquele ambiente burlesco me deixou perplexo. Ali nasceu, no lugar do luto, um produto pop.
XXI. Como é curioso quando contrapõem Debussy a Beethoven! Quase sempre, nesta operação, faz-se uma colossal redução de Beethoven, talvez para que se torne possível pô-los lado a lado… Debussy seria artista não preso à forma filosófica, ligado à sutileza e à poesia, não à ênfase exagerada e impetuosa, não ao desenvolvimento expressivo e grave daquele, com começo, meio e fim — no lugar, haveria uma passagem suspensa enlevada, contemplativa, uma fugaz e mundana beatitude; seria, também, um visionário a costurar a forma de maneira quase que tribal, cuja arte é contígua à vida urbana. Ora, uma construção argumentativa que se erige a partir de um ponto mentiroso não passa de petulância, por mais que suas colunas sejam elegantes, belas, por mais que o edifício tenha seu valor. O próprio Debussy endossou certa caricatura de Beethoven. E ignoram alguns dos movimentos de Beethoven que se desenrolam à maneira de prece, sem fecho, dissipando-se; ignoram que nem sempre há, em Beethoven, ímpeto, força, progresso, clamor à unidade e desenvolvimento, ignoram igualmente como Beethoven adota diversas vezes formas insólitas e genuínas, por ora cheias de humor, noutras expandida a expressividade pela pura experimentação. Ignoram. Azar o deles.