Cartão do olvido

04/09/2022

As coroas da glória, os adornos do charme, as chamas do desejo, as palmas do sucesso, os ditos da especialização, as decepções da amizade – seja o que for, a ausência que for, a palavra nasce em justo e caprichoso contorno.

Seus ecos na mente de outrem podem ressoar de diversa maneira, mas sua materialidade já foi pressuposta, sua razão de ser, dada. E está bem ao lado, a mão a enforma com diligência, tal qual um artesão levanta do barro um vaso.

Evadi-me, os músculos cansados e mente agitada se largam no abandono a invocar a hora mais silenciosa, que chega, e então toda a concentração tomba sobre a palavra, os pelos dos braços nus se eriçam arrepiados, através da janela é possível avistar a neblina a dobrar esquinas e esfriar o dorso das colunas de concreto.

Tem que ser! Mas, a seu modo, não de chofre, em meio a olhares, movimentos. Como dito: justo e caprichoso contorno, porque a atmosfera abriga divindades primitivas esquecidas, em cujos agouros se projetam todo tipo de imolação — prorrompe quando tudo parece mergulhado no marasmo do repouso, todavia a oficina maligna se mantém desperta nas frinchas das fumaças fantasmagóricas.

Prorrompe. Não como nasce a criança em uma semana mais ou menos prevista. Não é, afinal, um ciclo de vida, é um rasgo da expressão de uma alma jogado ao esquecimento.

No canto mais recôndito do quarto lá está a criatura parida, pulsa pela expressão primeva, percolou dentro, fora serpenteiam torvelinhos conturbados da realidade.

Opresso o casulo ao mesmo tempo triunfante e desesperado, com a noção de grandeza enquanto única certeza fundamental. Nobreza interdita esta que se ergue sobre os maus sentimentos.

Minha vida costumava ser fermentada pelo desprendimento de uma leviandade juvenil ofensiva, exilados gênio azedume e a acre reclusão, com insinuações sexuais vulgares. Seja como for, não contemos a história do Gênesis. Fique o elixir malsão deste Spleen ignorado. Lá fora, nasce o sol, a trazer o vigor da natureza, a necessidade convoca rotinas, e com tenacidade impiedosa aquela oficina satânica é escancarada por mãos humanas.