Porventura

 20/05/2026

Quando a atenção se desatou dos afazeres matinais, o olhar pôde, livre e não demoradamente, mirar o dia que nascia, sua luz de gesso já então dominante na vastidão do espaço. Por todos todos os cantos do céu se amontoavam nuvens em disposição industrial, nuvens tubos, nuvens faróis, mas essa conquista, no rastro de uma vigília obscura, se condensava num pulsar indeciso, feito comboio retardatário ao chegar. E então senti, por instante, no ar, o sinal possível de mensagem que se carrega no peito, destas foles plácidas, luz e música, à sua maneira.

Em seguida, retomados, café, arrumação, movimentar rotineiro, eriçados por uma inquietação de postiça noção de dever; o estar presente pontualmente e todo o deslocamento se encerram, afinal, em si, sem propósito. O corpo se estica e rodopia, por ora são e relativamente novo, e o resto, afora intervalos folegares, se abandona a uma ginástica encerrada no chão de calabouço medieval. 

Hoje, não encontro rota de fuga. Me falta, com as próprias mãos, criar a ocasião de assim proceder. Me atino, de princípio, que imerso estou em sentimento de alheamento e que novo rumo não virá a desembocar em palco de uma entrega apaixonada e faustosa. Pois o coração da necessidade de partida é o distanciamento margeado por mágoa destinada a ser memória, tão somente memória, sem o pasmo ou encanto entusiasmado do desfolhar dos dias.